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China supera EUA em aprovação global

Por Jornal do Interior06 de abril de 2026
China supera EUA em aprovação global

Uma nova pesquisa da Gallup indica uma mudança relevante no equilíbrio de poder simbólico no cenário internacional. Pela primeira vez em quase duas décadas, a China aparece com maior aprovação global de sua liderança do que os Estados Unidos.

De acordo com o levantamento, realizado em mais de 130 países, 36% dos entrevistados aprovam a atuação chinesa no cenário global, contra 31% no caso americano. O resultado marca a maior vantagem de Pequim sobre Washington desde o início da série histórica recente.

A deterioração da imagem dos Estados Unidos se intensificou entre 2024 e 2025, período em que a aprovação caiu de 39% para 31%. O desgaste é ainda mais visível entre aliados tradicionais: nos países da OTAN, o índice de aprovação da liderança americana recuou para apenas 21% em 2025.

Embora os dados reflitam, em parte, o contexto político do novo mandato de Donald Trump, analistas apontam que a tendência vai além de fatores conjunturais. O que está em curso é uma mudança estrutural na forma como o poder global é percebido — e exercido.

Do imaginário ao pragmatismo

Durante décadas, os Estados Unidos dominaram o chamado “soft power”, exportando não apenas influência política e militar, mas também uma visão de futuro baseada em inovação e estilo de vida. Empresas como Microsoft, Apple, Google, Amazon, Meta, Netflix e Tesla ajudaram a moldar a vida digital contemporânea e consolidaram a hegemonia tecnológica americana.

Esse modelo, no entanto, começa a perder força relativa. A China não buscou replicar o mesmo caminho. Em vez de vender um ideal aspiracional, passou a se projetar globalmente por meio da funcionalidade e da escala.

Hoje, a presença chinesa se manifesta em infraestrutura e soluções práticas: redes 5G, veículos elétricos acessíveis, painéis solares, drones, plataformas digitais competitivas e cadeias produtivas integradas. Trata-se de uma influência baseada menos no “encanto” e mais na utilidade concreta.

Esse reposicionamento ajuda a explicar a melhora da imagem chinesa em um momento de desgaste americano. Em países como a Alemanha, por exemplo, a aprovação da liderança dos EUA caiu 39 pontos percentuais, segundo a Gallup — um sinal de perda de confiança que vai além de divergências diplomáticas.

Para especialistas, a percepção crescente é de que os Estados Unidos se tornaram mais imprevisíveis e menos confiáveis como parceiro econômico e tecnológico, enquanto a China oferece estabilidade operacional e soluções em larga escala.

A disputa fica evidente no setor automotivo. A Tesla foi responsável por popularizar o carro elétrico como símbolo de inovação no Ocidente. Já a BYD e outras montadoras chinesas adotaram uma estratégia diferente: massificar o acesso.

Em 2024, a China respondeu por cerca de dois terços das vendas globais de veículos elétricos, com mais de 11 milhões de unidades comercializadas. No ano seguinte, a BYD ultrapassou a Tesla em vendas globais, consolidando a virada no setor.

Com preços mais competitivos e produção altamente integrada, o país passou a exportar não apenas veículos, mas todo o ecossistema tecnológico — incluindo baterias, software e capacidade industrial.

A mesma lógica se repete na transição energética. Projeções de consultorias como Wood Mackenzie indicam que a China deve concentrar mais de 80% da capacidade global de manufatura de painéis solares até 2026. Esse domínio permite ao país influenciar diretamente preços, cadeias de suprimento e o ritmo de adoção de energia limpa em diversas regiões do mundo.

O cenário desenhado pela pesquisa da Gallup aponta para uma disputa que já não se limita à política externa tradicional. A competição entre China e Estados Unidos avança sobre a indústria, a tecnologia e, sobretudo, o campo simbólico.

Os Estados Unidos ainda lideram em várias frentes de inovação, mas já não exercem com a mesma folga o poder de definir o imaginário global de progresso. A China, por sua vez, ocupa esse espaço com uma estratégia menos baseada em narrativa e mais em escala — um modelo que transforma eficiência em influência.

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