Atriz alagoana Ane Oliva está em “O Agente Secreto”, indicado ao Oscar

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por Redação do Interior

Na secretaria da Escola Estadual Romeu de Avelar, em Maceió, os dias costumam seguir um ritmo previsível. Pastas se acumulam, históricos escolares precisam ser organizados, carimbos marcam documentos que registram a trajetória de centenas de estudantes. É um espaço de rotina, disciplina e silêncio administrativo.

Mas, entre os papéis e planilhas que mantêm a escola funcionando, existe também uma história improvável — quase cinematográfica.

Ali trabalha Ane Oliva, servidora da Secretaria de Estado da Educação há mais de duas décadas e secretária escolar da unidade há 15 anos. Quem a vê atrás da mesa da secretaria dificilmente imagina que aquela mesma mulher já esteve diante de câmeras, em sets de filmagem e sob a direção de alguns dos cineastas mais respeitados do país.

Mais do que isso: ela integra o elenco de O Agente Secreto, longa dirigido por Kléber Mendonça Filho que representa o Brasil no Oscar 2026 neste domingo (15).O filme concorre em quatro categorias — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, com Wagner Moura, e Melhor Elenco.

Para quem vê de fora, parece uma coincidência curiosa. Mas a presença de Ane nesse momento histórico do cinema brasileiro é resultado de uma jornada longa, silenciosa e profundamente apaixonada pela arte.

Foto: acervo pessoal da atriz

Antes de qualquer cargo público, antes mesmo da rotina escolar, Ane sempre se definiu de uma forma simples:— Eu sou atriz.

Essa identidade começou a ser construída há mais de três décadas, quando ela ingressou no curso de Formação de Atores da Universidade Federal de Alagoas.Foi ali que nasceu a artista.

O teatro se tornou seu primeiro território — especialmente o teatro de rua, aquele que não precisa de palco formal, iluminação sofisticada ou cortinas vermelhas. Basta o encontro entre o ator e o público.

Integrante do tradicional Grupo Joana Cajuru, um dos coletivos teatrais mais antigos de Alagoas, Ane participou de espetáculos que transformavam ruas, praças e calçadas em cenários vivos.

Era um teatro de proximidade, emoção e improviso. Um teatro onde o público estava ali, ao alcance do olhar.

Naquele tempo, pensar em cinema para muitos artistas alagoanos parecia um sonho distante. O audiovisual no estado ainda dava passos tímidos. Mas sonhos, quando insistem em permanecer, encontram caminhos.

Na última década, o cenário começou a mudar. Novos editais, incentivos culturais e produções independentes trouxeram movimento para o audiovisual alagoano. Um dos projetos mais simbólicos desse momento foi o filme Serial Kelly, dirigido por René Guerra.

A produção decidiu apostar em algo raro: montar uma equipe majoritariamente formada por profissionais locais. Cerca de 90% do elenco e da equipe técnica eram alagoanos. Para artistas como Ane, aquilo representou uma abertura de portas.“Foi um divisor de águas na nossa carreira”, lembra.

Pela primeira vez, muitos profissionais puderam participar de um longa relevante sem precisar deixar sua cidade, suas raízes, sua história. E, como costuma acontecer no cinema, um projeto leva a outro.

Depois de Serial Kelly, o nome de Ane começou a circular entre produtores e diretores de elenco. Vieram novos convites. Um deles foi para o filme Propriedade, dirigido por Daniel Bandeira e estrelado por Malu Galli. A experiência teve um significado especial para ela. Foi a primeira vez que saiu de Alagoas para trabalhar em uma produção audiovisual.

Ao final de um dos dias de gravação, já no hotel, a emoção veio de forma inesperada. Ela chorou. Chorou sozinha, em silêncio.“Era felicidade pura. Naquele momento eu pensei: é possível.”

Depois vieram outros projetos importantes, como Carro Rei, dirigido por Renata Pinheiro, no qual contracenou com Matheus Nachtergaele. Também participou da série Cangaço Novo, produção da plataforma Prime Video que alcançou grande repercussão nacional.

Foto: Acervo pessoal da atriz

Pouco a pouco, a atriz que nasceu no teatro de rua começava a ocupar espaço nas telas.

Mas enquanto o cinema crescia em sua vida, outra missão seguia firme. A educação. Desde 2005, Ane é servidora da rede estadual de ensino. Há 15 anos trabalha na secretaria da Escola Estadual Romeu de Avelar, onde cuida da organização de documentos, registros escolares e toda a parte administrativa que garante o funcionamento da unidade.É um trabalho essencial — embora muitas vezes invisível.

Mesmo assim, a arte nunca ficou do lado de fora da escola.“Minha alma é de artista”, diz ela.

E foi justamente essa alma que a levou a transformar o espaço escolar em território cultural.

Entre os projetos que ajudou a criar está o Cineclube Conexões Pedagógicas. A ideia nasceu de uma pergunta simples: e se o cinema pudesse dialogar com os conteúdos das aulas?

Assim, professores começaram a selecionar filmes relacionados aos temas discutidos em sala. Após as exibições, os estudantes participam de debates e reflexões. “O cinema amplia a experiência educativa”, explica.

O projeto acontece em parceria com o Instituto Mundaú, organização da qual Ane também faz parte. Por meio dessa iniciativa, a escola passou a receber oficinas de teatro, fotografia e muralismo, além de atividades que aproximam os alunos da vida cultural da cidade. Para ela, não existe separação entre educação e cultura.“Elas são irmãs. Um país não se desenvolve se as duas não caminham juntas.”

A entrada no elenco do O Agente Secreto aconteceu de forma inesperada. Ane viu nas redes sociais que a produção buscava atores e decidiu enviar seu material. Depois veio o convite para um teste. Ela gravou a cena sozinha, em casa, durante a madrugada. Era um self-tape, método comum nas seleções de elenco.

A sequência exigia intensidade emocional. Inspirada no caso do menino Miguel — tragédia que comoveu o país —, a cena pedia dor, revolta e humanidade. No dia seguinte, uma mensagem chegou. A assistente de produção contou que havia chorado ao assistir à gravação.

Algum tempo depois veio a confirmação: Ane estava no filme.

Do teatro de rua a Cannes

Trabalhar com Kléber Mendonça Filho sempre foi um sonho. “Qual ator ou atriz não quer trabalhar com Kléber?”, diz.

Foto: Acervo pessoal da atriz

O filme reúne um elenco majoritariamente nordestino. Entre os alagoanos presentes estão Igor Araújo, Albert Tenório e Aline Marta.

Em 2025, Ane viveu outro momento inesquecível: acompanhou o filme no Festival de Cannes, onde o longa recebeu prêmios de melhor direção para Kléber Mendonça Filho e melhor ator para Wagner Moura. A trajetória internacional continuou com reconhecimentos no Critics Choice Awards e no Globo de Ouro, até chegar ao Oscar.

Enquanto o mundo do cinema celebra o momento histórico, em Maceió a rotina continua. Ane segue indo para a escola, organizando documentos, participando de projetos culturais e conciliando a vida artística com o serviço público.

Na Escola Romeu de Avelar, colegas acompanham cada notícia com orgulho.“Todos os dias parabenizamos Ane por essa conquista. Estamos muito felizes pelas premiações do filme”, conta a gestora-geral da unidade, Sílvia Bueno.

Agora, enquanto aguarda o resultado do Oscar 2026, Ane continua vivendo exatamente como sempre viveu: transitando entre dois mundos. De um lado, a escola pública, onde histórias reais de estudantes são registradas todos os dias. Do outro, o cinema, onde histórias ganham vida e atravessam o mundo.

Para ela, independentemente do resultado da premiação, o cinema brasileiro já venceu algo essencial.“Só de estarmos lá, pelo segundo ano consecutivo, isso já é uma vitória.”

E talvez seja mesmo. Porque, no fim, a trajetória de Ane Oliva mostra que os grandes sonhos às vezes nascem nos lugares mais silenciosos — entre papéis, carimbos e a coragem de quem nunca deixou de acreditar na própria arte.

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