O Brasil insiste em conviver com uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar: a violência de gênero. Todos os dias, mulheres são humilhadas, ameaçadas, espancadas e assassinadas simplesmente por serem mulheres. Não se trata de episódios isolados, de “crimes passionais” ou de surtos momentâneos de descontrole. Trata-se de uma engrenagem social perversa, alimentada por uma cultura que ainda naturaliza o machismo, relativiza a brutalidade masculina e frequentemente transforma a vítima em ré.
Os números são conhecidos — e são escandalosos. Ainda assim, parecem incapazes de produzir a indignação coletiva que deveriam. A cada poucas horas, uma mulher é assassinada no país. Cada feminicídio não é apenas uma vida interrompida; é o retrato de uma sociedade que falhou. Por trás de cada estatística há filhos órfãos, famílias destruídas e um rastro de dor que nenhuma política tardia é capaz de reparar.
É preciso dizer sem rodeios: a violência contra a mulher não nasce no momento do crime. Ela começa muito antes, na banalização do desrespeito. Começa nas piadas machistas repetidas à mesa, nas agressões minimizadas como “problema de casal”, no julgamento moral dirigido à vítima. Começa quando o corpo, a liberdade e a vontade das mulheres ainda são tratados como territórios sob controle masculino.
Durante décadas, a sociedade brasileira aprendeu a olhar para esse problema com condescendência. Quantas vezes o agressor foi tratado como alguém que “perdeu a cabeça”? Quantas vezes a pergunta dirigida à vítima foi “o que ela fez para provocar”? Essa lógica perversa não apenas distorce a realidade — ela legitima a violência.
Também não é mais admissível que o Estado atue apenas depois da tragédia consumada. Delegacias especializadas, casas de acolhimento e políticas públicas são fundamentais, mas continuam aquém do necessário. Falta estrutura, falta capilaridade, falta prioridade. Em muitos lugares do país, a mulher que decide denunciar ainda enfrenta o abandono institucional, o descrédito e o medo de que nada aconteça com o agressor.
Mas seria conveniente — e profundamente desonesto — atribuir toda a responsabilidade apenas ao Estado. A violência de gênero persiste porque a sociedade a tolera. Persiste porque homens ainda são educados sob a lógica da posse, do controle e da dominação. Persiste porque muitos preferem o silêncio confortável à confrontação necessária.
O enfrentamento dessa barbárie exige ruptura com padrões culturais arraigados e coragem para expor a raiz do problema: uma cultura que ainda considera aceitável que mulheres vivam sob ameaça.
