por Redação do Interior
A ex-secretária e ex-gerente administrativa Aline Barbara Mota de Sá Cabral confirmou, nesta segunda-feira (2), que tinha acesso ao cofre do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, durante depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social.
Aline foi convocada porque segundo relatos apresentados à CPMI, ela teria sido responsável por separar valores que seriam destinados ao pagamento de propinas. Questionada diretamente se já havia retirado dinheiro do cofre para repassar ao motorista do empresário, respondeu de forma hesitante: “Pode ser que sim, mas eu não vou ter certeza. Eu não me lembro”.
A depoente afirmou que o acesso ao cofre foi autorizado pelo próprio Antunes, sob a justificativa de que os recursos seriam utilizados para despesas rotineiras do escritório, como compra de materiais e café. De acordo com ela, as retiradas variavam entre R$ 500 e R$ 1 mil por vez, sem registro formal ou controle das quantias existentes no local. A emissão de notas fiscais, segundo declarou, ficava a cargo do setor financeiro, enquanto o motorista era quem retornava com os produtos adquiridos.
Antunes é investigado sob suspeita de atuar como um dos principais articuladores de um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões, aplicados sem autorização dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). À comissão, Aline afirmou desconhecer a origem dos recursos movimentados pelo empresário e disse que ele se apresentou como um “empresário de sucesso” quando a contratou. Também declarou que não tinha acesso a contas bancárias e não realizava pagamentos, nem teve participação em decisões estratégicas sobre destinação de recursos ou envolvimento direto em eventuais irregularidades.

Outro ponto sensível do depoimento foi a compra de um imóvel em Trancoso (BA), adquirido por Antunes da publicitária Danielle Fonteles. Aline confirmou que acompanhou a operação, mas afirmou não saber o valor da transação nem ter participado do pagamento. Inicialmente, disse preferir “não falar” sobre o assunto. Após insistência do relator, limitou-se a afirmar que soube posteriormente quem era a proprietária do imóvel.
A CPMI aprovou, em 26 de fevereiro, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Danielle Fonteles. Dados do Coaf apontaram que a publicitária recebeu R$ 5 milhões do Careca do INSS, entre novembro de 2023 e março de 2025. O montante teria sido referente à venda de uma casa de praia em Trancoso, na Bahia. Por esse motivo, a CPI pediu a quebra do sigilo bancário de Fonteles.
Durante a sessão, parlamentares também abordaram cadernos apreendidos pela Polícia Federal com anotações de percentuais como “Stefa 5%” e “Virgílio 5%”, que, segundo o senador Izalci Lucas, poderiam indicar divisão de valores no suposto esquema. Ele mencionou referências a Alessandro Stefanutto e ao ex-procurador do INSS Virgilio Filho.
Izalci afirmou que Antunes teria atribuído a autoria das anotações a Aline. Questionada sobre o tema, ela optou por permanecer em silêncio. Diante da recusa, o senador reagiu com a frase “quem cala consente” e alertou que a omissão poderia prejudicá-la futuramente.
No início do depoimento, a ex-secretária foi amparada por habeas corpus concedido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que lhe garantiu o direito ao silêncio. Mesmo com a decisão, ela optou por responder parte dos questionamentos.
Aline também negou ter feito anotações associando percentuais a agentes públicos e afirmou que, quando a operação da Polícia Federal foi deflagrada, já não exercia a função de secretária de Antunes. Por fim, negou ter comprado passagens ou repassado qualquer valor ao empresário Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
