Quando Vovó Rezou “relóóÓÓÓóogiiiooo” e o Inferno Tremeu

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por Guilherme Moraes

Tem uma história de minha falecida avó que eu gosto muito.

Ela era muito católica, fervorosa, daquelas que transformavam a novena do Pai Eterno em 30 dias no mês, 365 no ano. (Inclusive ela confiscou a mesada de todos os netos para enviar ao padre, mas essa é outra história…).

Certa vez, ela se mudou de uma cidadezinha do interior de Pernambuco para outra, lugar em que praticamente não conhecia ninguém.

Lá, o seu vizinho da frente era provavelmente um babalorixá, mas ela não carinhosamente o chamava apenas de um “macumbeiro”.

Verdade ou imaginação, por conta dele, ou não, minha vó dizia que coisas estranhas aconteciam nessa nova morada. Copo cair da mesa; cadeira se arrastar sozinha; barulhos esquisitos na calada da noite e outros elementos típicos que compõem a estética de um filme de terror clichê.

Também clichê, vovó pediu ajuda a tudo e todos, das amigas beatas da nova igreja que passou a frequentar até ao padre que, não muito satisfeito, realizou um exorcismo (malsucedido) na casa.

Como ensinam todas as histórias de assombração, após um exorcismo falho, as coisas sempre pioram. E foi justamente essa consequência que se abateu sobre vovó, tornando-a refém de efeitos tão nefastos.

O espírito diabólico, antes tímido, manifestou-se em sua plenitude, fazendo uma verdadeira algazarra na habitação daquela pobre senhora…

Cansada, com medo, mas dotada de uma inabalável fé no Divino, em um ato de coragem, devoção e entrega, vovó se ajoelhou em frente ao fantasma e começou a rezar todas as orações que conhecia (e eram muitas! Meu Deus, eram tantas!), mas nada acontecia.

Até que ela entoou o verso “Deus vos salve o relógio…” (que só muito tempo depois eu fui descobrir que é do Ofício da Imaculada Conceição) e então, numa imagem que em minha mente infantil sempre remetia ao final de um episódio de Scooby-Doo, o espírito começou a girar em forma de redemoinho enquanto repetia em uma voz cadavérica “relóóÓÓÓóogiiioooo, relóóÓÓÓóogiiioooo…” desaparecendo entre as paredes da casa.

Pouco tempo depois o homem sumiu sem deixar rastros (conta vovó), e tudo acabou bem e na paz do Senhor.

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