por Redação do Interior
A Prefeitura de Maceió firmou contrato com o Banco Regional de Brasília (BRB) para administrar, pelos próximos cinco anos, a folha de pagamento dos servidores municipais, um volume que ultrapassa R$ 140 milhões por ano. O acordo envolve cerca de 26 mil servidores, entre ativos, aposentados, pensionistas e comissionados, e foi celebrado em um momento em que já eram públicas as operações controversas do BRB com o Banco Master, hoje no centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.
O BRB venceu licitação pública e passou a operar a folha salarial a partir de outubro de 2025, quando os servidores foram obrigados a abrir conta no banco para receber seus vencimentos. A administração municipal afirma que o processo seguiu os trâmites legais e não apontou irregularidades na contratação.
Ainda assim, o contexto em que o contrato foi assinado passou a gerar questionamentos, sobretudo diante do agravamento das investigações envolvendo o BRB e sua relação com o Banco Master.
Escândalo financeiro amplia pressão sobre o BRB
O Banco Master, instituição privada, foi liquidado pelo Banco Central, após a identificação de fraudes, emissão de títulos de crédito sem lastro e falhas graves de governança. O principal dirigente do banco foi preso no fim de 2025, em operação da Polícia Federal.
Estimativas de órgãos reguladores indicam que o caso pode envolver prejuízo potencial superior a R$ 12 bilhões, afetando investidores institucionais e fundos de previdência em diversos estados, incluindo o IPREV de Maceió.
Nesse cenário, o BRB passou a ser alvo de forte escrutínio por ter mantido operações de compra de carteiras de crédito e ativos do Banco Master mesmo quando a instituição já estava sob monitoramento do Banco Central. Relatórios técnicos apontaram ausência de documentação adequada, registros contábeis questionáveis e elevado risco financeiro.
Mesmo após o BC barrar a tentativa de aquisição total do Master pelo BRB, o banco público continuou adquirindo ativos ligados à instituição privada, levantando suspeitas de que as operações teriam servido para absorver prejuízos ou mitigar o colapso do banco investigado.
Polícia Federal investiga atuação do banco estatal
Com o aprofundamento da crise, a Polícia Federal abriu inquérito específico para apurar a atuação do BRB, seu então presidente foi afastado e se investiga indícios de gestão fraudulenta e outras irregularidades financeiras. Avaliações preliminares de autoridades indicam que a exposição do BRB aos ativos do Master pode ter gerado um rombo estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões.
Embora o banco afirme colaborar com as investigações e tenha anunciado auditorias internas, o caso passou a lançar dúvidas sobre a governança e a solidez financeira da instituição, justamente no momento em que ela amplia sua presença em contratos públicos fora do Distrito Federal.
Previdência dos servidores de Maceió também entra no radar
Paralelamente ao contrato da folha salarial, a crise do Banco Master acendeu um alerta sobre os investimentos do Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (IPREV). Parte relevante dos recursos do instituto foi aplicada em letras financeiras e fundos ligados ao Master, operações classificadas como de alto risco e sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em caso de insolvência definitiva, não há garantia automática de recuperação dos valores, o que abre a possibilidade de perdas milionárias e ameaça direta ao equilíbrio atuarial do regime previdenciário municipal.
Diante desse cenário, o vereador Rui Palmeira levou ao Ministério Público denúncias que apontam possíveis falhas de gestão no IPREV, destacando o volume aplicado em ativos ligados ao Master e a atuação de consultorias financeiras investigadas pela Polícia Federal por prejuízos causados a outros fundos de previdência no país.
Aposentadorias e pensões sob risco
A combinação de banco liquidado, dirigentes presos, investimentos sem garantia e falhas de governança colocou servidores ativos e aposentados em estado de apreensão. Eventuais perdas relevantes podem comprometer o pagamento futuro de aposentadorias e pensões, atingindo milhares de famílias em Maceió.
O Ministério da Previdência Social já informou que, caso os prejuízos se confirmem e o IPREV não disponha de recursos suficientes, a responsabilidade final pela recomposição do equilíbrio previdenciário é do próprio município, conforme determina a Lei nº 9.717/1998. Isso pode exigir aportes do Tesouro municipal, contribuições extraordinárias ou revisão do plano de custeio.
Contrato segue válido, mas sob escrutínio
Até o momento, não há decisão judicial que suspenda ou anule o contrato entre a Prefeitura de Maceió e o BRB. Ainda assim, o avanço das investigações sobre o Banco Master e o papel do BRB ampliaram o escrutínio público e político sobre a decisão da gestão municipal.
Servidores de Maceió, que já demonstravam preocupação com os efeitos das decisões administrativas da Prefeitura sobre o futuro de suas aposentadorias, passaram a conviver também com a insegurança em relação aos próprios salários. O cenário, agravado pelo avanço das investigações e pelo contexto de instabilidade financeira, amplia a sensação de vulnerabilidade entre trabalhadores ativos e aposentados e amplia o temor de que escolhas de alto impacto feitas pela gestão municipal possam atingir não apenas o patrimônio previdenciário, mas também a remuneração mensal que sustenta suas famílias.
