por Lúcia Barbosa
Um estudo acadêmico conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) revelou um crescimento expressivo de discursos de ódio e preconceito nas redes sociais brasileiras durante períodos eleitorais, com destaque para a xenofobia direcionada ao Nordeste e aos nordestinos. Segundo a pesquisa, esse tipo de conteúdo teve um aumento de 821% em 2022, ano da eleição presidencial que resultou na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Intitulado “Discursos de ódio em redes sociais: uma análise com processamento de linguagem natural”, o trabalho foi publicado na Revista GEMInIS e analisou postagens feitas no Twitter (atual X) ao longo de 2022. O foco foi compreender como variaram as opiniões sobre o Nordeste à medida que o pleito eleitoral se aproximava — especialmente nos meses de setembro e outubro, quando o debate político se intensificou.
Eleições como gatilho para o ódio online
Os pesquisadores identificaram que a opinião predominante sobre nordestinos nas redes foi majoritariamente negativa, com agravamento progressivo conforme se aproximava o dia da votação. O pico do discurso de ódio coincidiu com o segundo turno das eleições presidenciais, quando ficou evidente a ampla votação de Lula nos nove estados do Nordeste.
A chamada “geografia do voto” — que garantiu ao candidato do PT vitória em 13 estados, sendo todos os nordestinos entre eles — passou a ser explorada nas redes sociais como explicação simplista para o resultado eleitoral. O Nordeste, então, foi transformado em alvo preferencial de ataques, sendo apontado por parte dos usuários como “responsável” pela derrota do então presidente Jair Bolsonaro.
Esse fenômeno, no entanto, não é novo. O estudo lembra que explosões semelhantes de xenofobia digital já haviam sido registradas em 2014, após a vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves, e em 2018, quando Fernando Haddad obteve forte votação na região.
Linguagem ofensiva e estigmatização histórica
Utilizando técnicas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) — área da inteligência artificial capaz de analisar grandes volumes de texto —, o estudo mapeou as palavras mais frequentemente associadas ao termo “nordestino”. O resultado é contundente: nenhuma associação positiva apareceu entre as mais recorrentes.
Termos como “pobre”, “miserável”, “analfabeto”, “burro” e “ingrato” dominaram o discurso, reforçando estereótipos históricos que vinculam o Nordeste ao atraso, à dependência de políticas sociais e à incapacidade política. Para os autores, esse conjunto de representações se insere no que a literatura define como xenofobia moderna, marcada por preconceitos regionais profundamente ligados a questões de raça, classe e desigualdade social.
O estudo também destaca que os ataques não se dirigem a indivíduos específicos, mas a todo um grupo social, configurando o que especialistas chamam de vitimização difusa — quando a dignidade coletiva é atingida, ainda que não seja possível identificar vítimas individualmente.
Redes sociais como terreno fértil
Outro ponto central da pesquisa é o papel das plataformas digitais. Com moderação limitada e frequentemente escudadas no argumento da “liberdade de expressão”, as redes sociais acabam funcionando como espaços de legitimação do discurso preconceituoso, muitas vezes tratado como mera “opinião”.
Segundo os pesquisadores, essa lógica é reforçada por um senso de propriedade individual das contas — “meu perfil”, “meu mural” — que contribui para a naturalização de falas ofensivas e discriminatórias, mesmo quando elas incitam ódio ou desumanizam grupos inteiros.
Impacto político e social
Os autores também contextualizam o ambiente político que alimenta esse tipo de discurso. Declarações públicas e recorrentes do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao longo de sua trajetória política, ajudaram a consolidar estereótipos negativos sobre o Nordeste, associando a região a políticas assistencialistas, pobreza e improdutividade. Esse histórico, segundo o estudo, contribuiu para legitimar ataques que depois se multiplicaram nas redes sociais.
Um alerta para a democracia
A pesquisa conclui que as eleições presidenciais de 2022 representaram um momento crítico para a intensificação do discurso de ódio xenófobo no Brasil, evidenciando como disputas políticas podem acionar preconceitos estruturais profundamente enraizados na sociedade.
Ao lançar mão de ferramentas tecnológicas avançadas, o estudo oferece subsídios importantes para a formulação de políticas públicas, o aprimoramento da moderação nas plataformas digitais e ações de educação cidadã e defesa dos direitos humanos.
Para os autores, compreender como o ódio se organiza e se espalha nas redes é um passo fundamental para combatê-lo e fortalecer a democracia.
