por Redação do Interior
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou que a Rede Sustentabilidade deixou de funcionar como um partido democrático e revelou que avalia sua permanência na legenda que ajudou a fundar. A declaração foi dada nesta quinta-feira (29), em entrevista ao programa É Notícia, da RedeTV!.
Durante a conversa, Marina fez as críticas mais duras até agora à atual direção do partido e às mudanças aprovadas recentemente no estatuto da sigla. Segundo a ministra, a Rede se afastou dos princípios que nortearam sua criação, como a defesa da democracia interna, da diversidade, do desenvolvimento sustentável e do combate às desigualdades.
“Eu sou fundadora da Rede. Ela foi criada para contribuir com a inovação política no Brasil, baseada em princípios e valores do campo democrático, popular e progressista. Infelizmente, esse projeto foi levado para outro caminho”, afirmou.
De acordo com Marina, alterações estatutárias comprometeram o funcionamento democrático da legenda e concentraram poder na Executiva Nacional. Um dos pontos mais sensíveis, segundo a ministra, foi a mudança nos critérios de acesso ao fundo eleitoral, que passou a retirar prioridade de parlamentares que não tenham exercido mandato por dois anos consecutivos.
“Ora, quem é que não exerceu por dois anos? Mesmo sendo mulher, sendo uma mulher preta, que garante recursos dobrados ao partido em função da minha eleição, eu não seria prioridade. Isso não é só falta de democracia, é falta de respeito com uma conquista histórica das mulheres e das mulheres pretas”, disse.
Confronto interno e ruptura política
A crise interna teve um marco decisivo em 2025, quando a disputa pelo comando nacional da Rede escancarou o racha entre Marina Silva e a ex-senadora Heloísa Helena. Em março daquele ano, Marina lançou publicamente o nome de Giovanni Mockus, então coordenador nacional da sigla, como candidato à presidência do partido. Foi a primeira vez que a ministra declarou apoio formal a um nome para comandar a legenda.
Heloísa Helena, por sua vez, apoiou Paulo Roberto Lamac Júnior, então secretário de Assuntos Institucionais e de Comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte. A disputa foi decidida no 6º Congresso Nacional da Rede, realizado em abril de 2025, quando a chapa ligada a Heloísa saiu vitoriosa, consolidando o controle da Executiva Nacional pelo seu grupo.
Apesar da trajetória comum e da proximidade política no passado — que levou Marina a convidar Heloísa Helena para integrar a Rede Sustentabilidade —, as duas passaram a se distanciar nos últimos anos, até chegarem ao confronto aberto pelo controle da legenda.
Estatuto, reação e judicialização
O embate se intensificou no fim de 2025, após a aprovação de mudanças no estatuto partidário. Integrantes da ala ligada à ministra divulgaram, em 18 de dezembro, uma nota pública classificando as alterações como um processo de “captura institucional” da Rede, com centralização de poder, enfraquecimento das instâncias estaduais e municipais e redução de direitos dos filiados.
A crise também chegou ao Judiciário. Em 29 de janeiro de 2026, a Justiça do Rio de Janeiro anulou o Congresso Municipal da Rede realizado em fevereiro do ano anterior, apontando irregularidades no processo de convocação, credenciamento e votação. A decisão indicou falhas que se estenderam às instâncias estadual e nacional do partido.
Diante do cenário, Marina Silva passou a admitir publicamente a possibilidade de deixar a Rede Sustentabilidade e confirmou que mantém conversas com legendas do campo progressista, enquanto avalia uma eventual candidatura ao Senado em 2026.
