por Professor Dr. Cláudio Jorge
Provavelmente todo o Brasil esteja festejando o sucesso do filme “Agente Secreto” do cineasta pernambucano Kleber Mendonça. É indiscutível a sua perspectiva e genialidade sobre o cinema. No entanto, é importante compreender que o momento presente da cinematografia pernambucana tem um passado bastante conectado com a atual conjuntura.
Pernambuco tem o majestoso cinema São Luiz, que é destaque no filme de Kleber. Além disso, na vigência do Estado Novo, tínhamos inúmeras salas de cinema distribuídas em Pernambuco. Nas correspondências enviadas ao Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado de Pernambuco fora possível ressaltar a extrema necessidade da divulgação propagandística do Estado Novo, através do cinema pernambucano.
Essa necessidade acabou despertando o interesse de alguns cinematografistas, desejosos de virem trabalhar no Estado:
“Com a criação do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda a divisão de cinema do DEIP de Pernambuco precisará, fatalmente, de um cinematografista prático, cujos conhecimentos facilitem a organização desse departamento. Assim, venho oferecer a V. S. os meus serviços”.
As correspondências acima citadas evidenciam a instauração de uma divisão de cinema em Pernambuco, conferindo-lhe importância estratégica como o segundo meio de propaganda, sendo a imprensa o primeiro. Um outro aspecto importante é o fato de que Pernambuco estava absorvido pelos cinemas, não só na capital como no interior, invadindo o cotidiano e modificando hábitos, comportamentos e reinventando novos valores à sociedade.
No estado havia, em média, de 37 cinemas, entre eles: (…) Ideal e Paroquial, em Altinho; o Globo, em Belo Jardim; Bom Jardim, em Bom Jardim; Maciel Monteiro, em Bonito; Mercês, em Cabo; Soc. M. 8 de Dezembro, em Cabrobó; Círculo Católico, em Caruaru; Moderno, em Igarassu; Floriano, em Jaboatão; Duarte Coelho, em Olinda; Leopoldo Fróes, em Pau d’Alho; Boa Vista, Cinema da Força Policial do Estado, em Recife; Cardoso, em Rio Formoso; Beltrão, em São Caetano; Municipal, em São Lourenço.
No tocante aos filmes, o Departamento de Imprensa e Propaganda de Pernambuco tinha o propósito de tomar a população cada vez mais bestializada ao que ocorria durante o período do Estado Novo. Para isso, era muito comum realizar a censura de um dos principais meios educativos do período, o cinema.
O DEIP, em uma das correspondências enviadas pela Paramount Films, demonstra a proposta que deveria ser implantada e sustentada durante o Estado Novo:
“Atendendo ao pedido verbal de ontem, tido por V.S. com nosso gerente anexamos à presente solicitação duas sinopses dos filmes A Vida Começa aos 14 e Cachorro Viralata, filmes que poderão ser fornecidos pela Paramount para a seção cinematográfica comemorativa da passagem do 6º aniversário do Estado Nacional, a ser promovido no cine Art-palácio desta capital, pelo DEIP sob os auspícios de V.S. (…) Os filmes em referência são os mais adequados a um programa dedicado à criança, que podemos conseguir de conformidade com a solicitação feita por V.S. (…) Além de um dos filmes acima, a Paramount fornecerá mais um ou dois desenhos do marinheiro POPEYE, a fim de mais abrilhantar o referido programa (…)”.

O Estado arquitetado de 1930-45 será fundamentalmente centralizador e buscará uma forte reconfiguração do capital sem romper com a dependência e subordinação do capital internacional. No contexto da ditadura Estado Novo, o cinema foi utilizado como dispositivo de alienação e submissão de uma sociedade. No caso da perspectiva do filme “Agente Secreto”, o cinema(filme) é um dispositivo de desalienação e denúncia do golpe de 1964. Diante do bombardeamento das tecnologias contemporâneas das “ditas” redes sociais, o cinema ainda hoje possui o poder emancipador para combater o inumano.
Morais, Cláudio Jorge Gomes de. O cinema educativo em Pernambuco: a intervenção de Agamenon Magalhães (1937-1945). Maceió: CBA Editora, 2018.
