por Redação do Interior
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta sexta-feira (23), a Operação Barco de Papel, que aprofunda as investigações sobre suspeitas de irregularidades em aplicações financeiras realizadas com recursos do Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores do Estado do Rio de Janeiro. A ação é um desdobramento direto do caso Banco Master, investigado desde 2025 por suspeitas de crimes financeiros de grande porte.
A operação tem como alvo diretores da autarquia previdenciária e apura decisões de investimento que teriam exposto o patrimônio do fundo a riscos elevados e incompatíveis com a finalidade previdenciária. Por determinação da 6ª Vara Federal Criminal, agentes cumprem quatro mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro.
Segundo a Polícia Federal, a investigação se concentra em nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
Esses títulos funcionam, na prática, como empréstimos diretos a instituições financeiras em troca de juros, mas não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — fator que amplia significativamente o risco, sobretudo para fundos previdenciários, cuja natureza exige segurança e previsibilidade.
Auditorias apontam que alguns aportes superaram R$ 300 milhões e foram realizados sem informações públicas suficientes sobre lastro, liquidez ou mecanismos adequados de mitigação de risco.
Um dos episódios analisados pelos órgãos de controle envolve um investimento de R$ 100 milhões feito em junho, que perdeu cerca de 25% do valor em apenas um mês, passando a ser avaliado em R$ 75 milhões.
Para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), episódios como esse “evidenciam uma gestão possivelmente irresponsável dos recursos do regime previdenciário”, ao expor aposentados e pensionistas a oscilações incompatíveis com a finalidade do fundo.
A operação contou com apoio técnico da Secretaria de Regime Próprio e Complementar (SPREV), vinculada ao Ministério da Previdência Social. Um Relatório de Auditoria Fiscal elaborado pelo órgão foi decisivo para impulsionar as diligências.
A Polícia Federal apura a possível prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, entre eles:
- gestão fraudulenta;
- desvio de recursos públicos;
- indução em erro da administração pública;
- fraude à fiscalização ou ao investidor;
- associação criminosa;
- corrupção passiva.
As suspeitas recaem sobre decisões internas da autarquia e eventuais benefícios indevidos a terceiros no processo de escolha e execução dos investimentos.
Impacto nacional e risco sistêmico
O caso não se restringe ao Rio de Janeiro. Levantamentos indicam que institutos de previdência estaduais e municipais aplicaram cerca de R$ 1,8 bilhão em Letras Financeiras do Banco Master, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, sem garantia do FGC.
Entre os maiores investidores estão o Rioprevidência (RJ): R$ 970 milhões; o Amprev (AP): R$ 400 milhões e o Iprev de Maceió (AL): R$ 97 milhões.
Com a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central, esses valores passaram a ser classificados como dívida no processo de liquidação, o que torna a recuperação dos recursos incerta.
O Iprev de Maceió, responsável pela previdência dos servidores municipais da capital alagoana, sustenta que, à época das aplicações, o Banco Master estava regularmente habilitado junto ao Banco Central e possuía grau de investimento atribuído por agência de classificação de risco. Além disso relativizou a possível perda de 10% do patrimônio previdenciário.
Especialistas e órgãos de controle alertam que relativizar perdas potenciais de até 10% do patrimônio previdenciário não configura prudência na gestão de recursos públicos. Em regimes próprios de previdência, esse percentual não é marginal: representa impacto direto sobre o equilíbrio atuarial e, caso se concretize, tende a repercutir nos cofres públicos.
Em previdência pública, não existe “perda pequena”. Qualquer rombo compromete a sustentabilidade do sistema, pressiona orçamentos estaduais e municipais e transfere o custo para toda a sociedade.
Até o momento, não há registro de que a operação ocorrerá em outros fundos, nem de prisões ou medidas cautelares adicionais nesta fase da Operação Barco de Papel. O material apreendido será analisado, e a Polícia Federal não descarta novos desdobramentos, tanto na esfera criminal quanto administrativa.
