por Redação do Interior com Raquel Lopes/ Folha de S Paulo
O Brasil voltou a registrar um recorde histórico de feminicídios. Em 2025, ao menos 1.470 mulheres foram assassinadas em contextos de violência doméstica, familiar ou por motivação de gênero, superando os 1.459 casos contabilizados em 2024. O número representa a maior quantidade registrada nos últimos dez anos.
Os dados ainda são parciais e devem crescer. Isso porque Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo ainda não enviaram ao sistema nacional as informações referentes aos crimes ocorridos no mês de dezembro. Mesmo assim, o total já aponta um aumento mínimo de 0,41% em relação ao ano anterior.
Apesar da possibilidade de atualização dos números, o cenário consolidado até agora revela uma realidade alarmante: em média, quatro mulheres foram assassinadas por dia ao longo de 2025 no país, vítimas de relações marcadas por violência doméstica, familiar ou misoginia.
Norte e Nordeste concentram maiores altas percentuais
O levantamento aponta que 15 estados brasileiros registraram crescimento nos casos de feminicídio entre 2024 e 2025. As maiores altas percentuais estão concentradas nas regiões Norte e Nordeste, que historicamente enfrentam desafios estruturais no enfrentamento à violência contra a mulher, como menor acesso a redes de proteção e dificuldades de interiorização das políticas públicas.
Em sentido oposto, 11 estados conseguiram reduzir o número de ocorrências no mesmo período, indicando que, embora o problema seja nacional, há realidades regionais distintas e respostas desiguais do poder público.
Mudança na lei endureceu penas, mas números seguem altos
Desde 2024, o feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do crime de homicídio e passou a ser tipificado como crime autônomo no Código Penal brasileiro. Com a mudança, as penas foram ampliadas e hoje variam de 20 a 40 anos de prisão, uma das punições mais severas previstas na legislação penal.
Especialistas, no entanto, avaliam que o endurecimento da lei, por si só, não tem sido suficiente para conter o avanço dos crimes. A maioria dos feminicídios segue ocorrendo após históricos prolongados de violência, muitas vezes já conhecidos pelas autoridades, o que reforça a necessidade de ações preventivas, fortalecimento da rede de proteção e respostas mais rápidas do Estado.
Violência persistente e desafio estrutural
Mesmo com avanços legais e maior visibilidade do tema, os dados revelam que o feminicídio continua sendo um problema estrutural no Brasil, atravessado por desigualdades sociais, falhas na proteção às vítimas e dificuldade de interromper ciclos de violência antes que eles evoluam para o desfecho fatal.
Com a consolidação dos dados pendentes, o número final de 2025 deve confirmar — ou até ampliar — o pior cenário da última década, reforçando o alerta sobre a urgência de políticas públicas eficazes para garantir o direito das mulheres à vida.
