Lavagem do Bonfim leva fé, tradição e diversidade religiosa às ruas de Salvador

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por Redação do Interior

A Lavagem do Bonfim voltou a transformar Salvador em um grande espaço de celebração da fé, da cultura e do sincretismo religioso. Considerada uma das mais emblemáticas manifestações religiosas do Brasil, a festa reuniu, lado a lado, católicos, adeptos do candomblé, praticantes de outras religiões, turistas e até pessoas sem filiação religiosa, em um evento que mistura devoção, identidade popular e tradição secular.

O ponto alto da celebração é o cortejo de 6,8 quilômetros, que percorre as ruas da Cidade Baixa até a Basílica Santuário do Senhor do Bonfim, reafirmando a máxima popular baiana de que “quem tem fé, vai a pé”.

Início com ato ecumênico

As atividades tiveram início nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira, por volta das 7h30, com um ato ecumênico na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A cerimônia reuniu representantes de diferentes crenças e foi encerrada com a execução do Hino ao Senhor do Bonfim, composto em 1923, durante as comemorações do primeiro centenário da Independência da Bahia.

Após o momento religioso, a imagem do Senhor do Bonfim seguiu em procissão pelas ruas da Cidade Baixa, sob um céu nublado. De acordo com a Prefeitura de Salvador, cerca de 1 milhão de pessoas participaram do cortejo ao longo do trajeto.

Uma tradição com mais de dois séculos

A devoção ao Senhor do Bonfim na Bahia tem 281 anos de história. O culto começou em 1745, quando o capitão de mar e guerra Theodósio Rodrigues de Faria trouxe de Setúbal, em Portugal, uma imagem peregrina de Jesus Cristo crucificado. Segundo a tradição, a imagem foi trazida como pagamento de uma promessa feita pelo capitão após sobreviver a uma violenta tempestade em alto-mar.

Com a promessa cumprida, foi construída a Basílica Santuário Nosso Senhor do Bonfim, localizada no alto da Colina Sagrada, que se tornou um dos principais centros de devoção católica do Nordeste brasileiro.

Já o cortejo da Lavagem teve início em 1773, quando romeiros e pessoas escravizadas, a mando de integrantes da Irmandade do Senhor do Bonfim, eram encarregados de limpar e ornamentar a igreja para a missa dominical. Com o passar do tempo, o gesto ganhou caráter público e simbólico, consolidando-se como uma tradição anual.

A Lavagem acontece sempre na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis.

Festa religiosa com clima popular

Durante o percurso, a diversidade marcou presença. Entre os fiéis estavam católicos, filhos e filhas de santo, integrantes de outras religiões e até ateus, que se misturaram a grupos culturais, como rodas de samba, blocos de percussão, capoeiristas e bandas de sopro.

Músicas consagradas do axé deram um tom festivo ao evento, criando um clima que lembra o Carnaval. Apesar disso, desde 1998, o desfile de trios elétricos é proibido durante a Lavagem, como forma de preservar o caráter religioso da celebração.

Chegada à Colina Sagrada

Ao chegar à Colina Sagrada, a imagem do Senhor do Bonfim foi recebida com aplausos, cânticos e fogos de artifício. Muitos fiéis aproveitaram o momento para amarrar as tradicionais fitinhas do Senhor do Bonfim nas grades que cercam o santuário, fazer pedidos, agradecer graças alcançadas e renovar promessas.

No encerramento do cortejo, o adro e as escadarias da basílica foram lavados pelas baianas, vestidas de branco, que utilizaram água de cheiro, folhas e ervas, em um ritual que simboliza purificação, proteção e renovação espiritual.

Sincretismo como marca da celebração

A Lavagem do Bonfim é um dos maiores símbolos do sincretismo religioso brasileiro. No candomblé, o Senhor do Bonfim é associado a Oxalá, orixá ligado à criação, à fé e à paz. Essa associação surgiu como uma estratégia de resistência dos povos africanos escravizados, que passaram a preservar suas crenças ao relacioná-las aos santos católicos.

Por isso, a festa reúne, de forma harmoniosa, orações, cânticos, danças e símbolos de diferentes tradições religiosas, reforçando a convivência e o respeito entre as crenças.

Patrimônio cultural da Bahia

Reconhecida como patrimônio cultural imaterial da Bahia, a Lavagem do Bonfim atrai, todos os anos, milhares de pessoas, entre moradores, turistas, artistas, lideranças religiosas e autoridades políticas. Mais do que um evento religioso, a celebração se consolidou como um marco da identidade baiana, da diversidade cultural e da tolerância religiosa.

Ao atravessar quase três séculos de história, a Lavagem do Bonfim segue reafirmando Salvador como um dos principais polos de religiosidade popular do Brasil, mantendo viva uma tradição que une fé, memória e resistência cultural.

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