Apoio à democracia convive com frustração e pragmatismo entre brasileiros, indicam pesquisas e discursos de Lula

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por Redação do Interior

Pesquisas recentes e declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelam um cenário ambíguo em relação à democracia no Brasil: ao mesmo tempo em que o regime ainda é visto como a melhor forma de governo, cresce a percepção de que ele não tem entregue aos cidadãos aquilo que prometeu, especialmente em termos de estabilidade, justiça social e funcionamento das instituições.

Uma pesquisa do instituto Genial/Quaest, divulgada nos dias 14 e 15 de janeiro de 2026, mostra que 50% dos brasileiros consideram aceitável a interferência de um país em outro para prender um ditador. Outros 41% rejeitam esse tipo de ação, enquanto 9% não souberam responder.

O levantamento foi realizado após a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão de Nicolás Maduro no início de janeiro, e indica uma opinião pública marcada por pragmatismo e relativização de princípios clássicos da soberania e do direito internacional. 66% acham que o Brasil deve manter neutralidade frente às ações dos Estados Unidos na Venezuela, 18% defendem apoiar, e 10% querem se opor.

A pesquisa também captou o sentimento do país em relação a interferência dos EUA em outras nações: 58% dos brasileiros dizem temer que os EUA possam fazer algo semelhante no Brasil, enquanto 40% não veem esse risco.

A Quaest ouviu 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais entre 8 e 11 de janeiro, com margem de erro de ±2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Embora a investigação não trate diretamente do regime democrático brasileiro, especialistas apontam que os dados revelam uma flexibilização do apego a regras institucionais, fenômeno que costuma emergir em contextos de frustração com a política e com o desempenho das democracias.

Apoio à democracia é limitado, segundo o Latinobarómetro

Esse sentimento aparece de forma mais direta nos dados do Latinobarómetro 2024, a mais tradicional pesquisa comparativa sobre opinião pública na América Latina. A última edição disponível foi coletada entre agosto e outubro de 2024, com entrevistas em 18 países da região.

No Brasil, os resultados indicam que o apoio à democracia permanece abaixo de 50%, girando em torno de 45% a 46%, percentual inferior à média latino-americana, que ficou próxima de 52%. Além disso, uma parcela expressiva dos brasileiros se declara indiferente ao tipo de regime político ou admite que a democracia poderia funcionar sem partidos ou oposição — sinais de baixa confiança nos mecanismos centrais do sistema democrático.

O Latinobarómetro também aponta que, mesmo entre aqueles que dizem preferir a democracia, há alto nível de insatisfação com o seu funcionamento prático, especialmente no que diz respeito ao desempenho das instituições, à representação política e à capacidade do Estado de reduzir desigualdades.

“A democracia não tem dado o que prometeu”, diz Lula

Essa frustração não aparece apenas nas pesquisas. Ela também foi reconhecida pelo próprio presidente Lula em discursos recentes no Brasil e no exterior. Em setembro de 2024, durante evento na Assembleia Geral da ONU, Lula afirmou que a democracia não pode se limitar ao ritual eleitoral, alertando que eleições periódicas, por si só, não garantem participação, inclusão ou justiça social.

Já em setembro de 2025, ao discursar novamente na ONU, o presidente foi mais direto ao relacionar a crise democrática global às desigualdades sociais. Segundo Lula, “a pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”, porque corrói a confiança nas instituições e alimenta discursos autoritários.

No Brasil, o presidente voltou ao tema em discurso feito em 13 de janeiro de 2026, ao defender a necessidade de equilíbrio jurídico, fiscal, econômico e social como condição para fortalecer a democracia. Lula afirmou que a população precisa de previsibilidade, estabilidade e segurança institucional para confiar no Estado e conviver democraticamente na diversidade.

Para o presidente, a incapacidade das democracias de entregar resultados concretos — como crescimento econômico sustentável, redução da pobreza e segurança jurídica — ajuda a explicar o avanço do descrédito nas instituições políticas em várias partes do mundo.

Democracia apoiada em tese, questionada na prática

A leitura conjunta dos dados da Quaest, do Latinobarómetro e das falas de Lula desenha um quadro de apoio normativo, mas desgaste prático da democracia. Os brasileiros ainda veem o regime democrático como preferível ao autoritarismo, mas demonstram ceticismo em relação ao seu funcionamento real e às elites políticas responsáveis por operá-lo.

Esse ambiente favorece posições contraditórias: defesa abstrata da democracia, combinada com tolerância a soluções excepcionais, líderes fortes ou intervenções externas, desde que apresentadas como respostas a crises ou injustiças.

Analistas avaliam que o desafio para o Brasil — e para as democracias em geral — é transformar o apoio formal ao regime em confiança efetiva nas instituições, algo que passa não apenas por eleições livres, mas por resultados concretos na vida da população, estabilidade econômica, justiça social e respeito às regras do Estado de Direito.

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