por Redação do Interior
A pesquisa Raio-X da Vida Real, realizada pela Data Favela em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), é o mais amplo levantamento já feito no Brasil com pessoas diretamente envolvidas no tráfico de drogas. O estudo se baseou em 5.000 entrevistas presenciais, das quais 3.954 foram consideradas válidas para análise, realizadas entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025, em favelas de 23 estados brasileiros. O questionário reuniu 84 perguntas sobre perfil socioeconômico, trajetória pessoal, família, trabalho, saúde, consumo, sonhos e expectativas. A margem de erro é de 1,56 ponto percentual, com 95% de nível de confiança, o que confere robustez estatística aos resultados.
O levantamento revela que o tráfico é composto por uma estrutura diversa e hierarquizada. Os entrevistados vão desde donos de pontos de venda e responsáveis pela contabilidade, passando por quem embala maconha, cocaína e crack, até os homens armados que protegem lideranças e impedem a entrada da polícia nos territórios. Também fazem parte desse universo os vigias, encarregados de monitorar a presença de forças policiais e de grupos rivais.
Perfil sociodemográfico
Do total de entrevistados, 79% são homens, 21% mulheres e menos de 1% se declarou LGBTQIAPN+. A maioria é composta por pessoas negras (74%), e cerca de metade tem entre 13 e 26 anos, evidenciando um perfil predominantemente jovem. O estudo aponta ainda que 80% nasceram e cresceram na própria favela onde atuam, o que reforça o caráter territorial do fenômeno.
No campo familiar, os dados desmontam a tese de que o tráfico seja fruto, majoritariamente, de lares desestruturados. Cerca de 35% cresceram em famílias consideradas tradicionais, enquanto 38% foram criados em famílias monoparentais, sobretudo chefiadas por mulheres. Avós e tias aparecem como figuras centrais na criação. Além disso, 84% afirmam que não aceitariam que um filho ingressasse no crime, sinalizando desejo de ruptura com esse ciclo.
Educação e trabalho
A pesquisa revela baixa escolaridade média. Apenas 22% concluíram o ensino médio, enquanto 42% não completaram o ensino fundamental. Quando questionados sobre o que fariam de diferente na vida, 41% afirmaram que gostariam de ter estudado mais, apontando a educação como um fator decisivo ausente em suas trajetórias.
Do ponto de vista econômico, os dados também desmontam o mito do enriquecimento fácil. 63% ganham até dois salários mínimos por mês, com renda média declarada de cerca de R$ 3.536, valor insuficiente para romper com a pobreza. 18% afirmam que não sobra dinheiro ao final do mês. Existe uma elite dentro do tráfico, mas ela é restrita: apenas 2% disseram ganhar mais de US$ 2.800 mensais. Muitos relatam que guardam o dinheiro em casa ou com parentes, longe do sistema financeiro formal, por medo de rastreamento pelas autoridades.
Outro dado relevante é que 36% exercem alguma atividade lícita paralelamente ao tráfico. Entre eles, 42% realizam bicos, 24% são pequenos empreendedores, 16% têm emprego formal, 14% ajudam em negócios familiares e 2% participam de projetos sociais.
Motivações, saúde e perspectivas
A principal motivação para a entrada no tráfico é a necessidade econômica e a falta de alternativas de renda, segundo os próprios entrevistados. Ainda assim, 58% afirmam que deixariam o crime se tivessem acesso a trabalho estável ou oportunidades reais de geração de renda, como emprego formal ou negócio próprio. Por outro lado, 31% dizem que não deixariam a atividade mesmo com oportunidades, o que indica a complexidade do fenômeno. Entre os que desejam sair, 22% sonham em abrir o próprio negócio e 20% priorizam um emprego com carteira assinada — proporções que variam de estado para estado.
O estudo também lança luz sobre as condições de saúde e bem-estar dessa população. 39% relatam sofrer de insônia, 33% afirmam ter ansiedade e 19% dizem enfrentar episódios de depressão. Há ainda relatos frequentes de consumo de drogas, jornadas exaustivas e poucas horas de sono, evidenciando os custos físicos e emocionais da vida no tráfico.
Diante desse cenário, a CUFA defende que o enfrentamento ao tráfico não pode se limitar à repressão policial. A entidade propõe a construção de um amplo programa público de emprego, trabalho e geração de renda, articulando poder público, sociedade civil e iniciativa privada. Segundo o diretor da Data Favela, trata-se de estratégias de médio e longo prazo, que não oferecem soluções imediatas, mas apontam caminhos estruturais para reduzir a dependência do crime e enfrentar suas causas profundas.
