por Redação do Interior
A União Europeia deu um passo decisivo para destravar o acordo de livre comércio com o Mercosul nesta quarta-feira (7), em meio ao recrudescimento das tensões geopolíticas internacionais após a invasão americana na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro. Uma reunião extraordinária de ministros da Agricultura do bloco, realizada em Bruxelas, serviu como termômetro político para a votação considerada crucial sobre o tratado, prevista para sexta-feira.
Embora o acordo não constasse oficialmente da pauta do encontro, a articulação nos bastidores revelou um esforço coordenado da Comissão Europeia para superar resistências internas e assegurar maioria favorável ao pacto, negociado há mais de duas décadas entre a UE e os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
A principal virada veio da Itália. O país havia se alinhado, pouco antes do Natal, ao grupo de oposição liderado pela França, preocupado com os impactos do acordo sobre o setor agrícola europeu. Roma, no entanto, obteve concessões relevantes que não estavam sobre a mesa até o fim de semana passado.
Entre elas, está a antecipação de cerca de € 45 bilhões em subsídios agrícolas previstos no próximo orçamento plurianual da União Europeia (2028–2034). Os recursos deverão ser liberados de forma emergencial para conter a insatisfação dos agricultores do continente, que veem no acordo uma ameaça à competitividade de produtos locais diante das exportações sul-americanas.
Outro ponto sensível envolveu o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), taxa climática sobre importações que entrou em vigor neste mês. O ministro italiano da Agricultura, Francesco Lollobrigida, conseguiu apoio para a isenção tarifária de fertilizantes, insumo estratégico para o setor agrícola e que poderia ser taxado em até 25%. Embora o CBAM preveja cláusulas de suspensão temporária, a Itália defende que os fertilizantes sejam excluídos de forma permanente do mecanismo — pleito que contou com apoio da França.
“Sempre apoiámos a conclusão do acordo, salientando a necessidade de levar em devida conta as preocupações legítimas do setor agrícola”, afirmou o ministro italiano das Relações Exteriores, Antonio Tajani.
Segundo ele, o tratado com o Mercosul oferece “enormes benefícios” econômicos e estratégicos para a União Europeia.Para destravar o acordo, a Comissão Europeia aceitou pagar um preço político elevado. Além de flexibilizar o CBAM, voltou atrás em diretrizes da nova política agrícola comum que previam maior controle de Bruxelas sobre a destinação de subsídios nacionais durante a vigência do orçamento plurianual. A mudança atende a pressões de governos e sindicatos rurais, mas gera críticas de setores ambientalistas e parlamentares europeus.

O timing das deliberações, poucos dias após a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, reforçou a leitura de que o acordo ganhou peso estratégico. Em um cenário de crescente instabilidade internacional e disputa por influência entre grandes potências, o tratado é visto em Bruxelas como uma forma de diversificar parcerias, fortalecer laços com a América do Sul e oferecer algum fôlego à economia europeia, que enfrenta baixo crescimento e pressões internas.
Segundo o site Politico, diplomatas europeus avaliam que a principal incógnita agora é a reação de Washington à possível assinatura do acordo, logo após o presidente Donald Trump exibir força militar na região sob o que aliados classificam como uma reedição da Doutrina Monroe — chamada por críticos de “Doutrina Donroe”.
Apesar do avanço, a França segue cautelosa e aposta na reação do Parlamento Europeu, onde a ratificação do acordo ainda pode enfrentar obstáculos, especialmente em temas ligados à agricultura, meio ambiente e padrões sanitários. Ainda assim, a reunião desta quarta-feira foi interpretada como um sinal claro de que a União Europeia está disposta a ceder para finalmente tirar do papel um dos maiores acordos comerciais do mundo.
