Por Redação do Interior
Dois pacientes que sofreram lesão medular completa, com perda total de movimentos e de sensibilidade da cintura para baixo, apresentaram retomada de sensações e pequenos movimentos após receberem aplicações de polilaminina, uma substância ainda em fase de pesquisa científica. Os procedimentos foram realizados por determinação judicial, há cerca de duas semanas, e os casos estão sendo acompanhados por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A pesquisa é liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, uma substância de origem na placenta humana que, em testes pré-clínicos, demonstrou potencial para restabelecer a medula espinhal e possibilitar a recuperação parcial ou total dos movimentos em casos de paraplegia e tetraplegia.
Casos recentes acompanhados pela equipe
Um dos pacientes é Luiz Fernando Mozer, de 37 anos, que sofreu um acidente no início de dezembro durante uma apresentação de motocross, em Cachoeiro de Itapemirim (ES). Ele recebeu a aplicação da polilaminina na Santa Casa de Misericórdia do município.
Segundo a equipe médica e os pesquisadores, menos de 48 horas após o procedimento, Luiz já relatava sensação de toque nos membros inferiores. Em nova avaliação realizada nesta semana, os médicos observaram contração dos músculos da coxa, da região anal e ampliação do campo de sensibilidade.
O segundo paciente, de 35 anos, recebeu a substância em um hospital do Rio de Janeiro, também por ordem judicial. Ele ficou paraplégico após uma queda de moto, com lesão total da medula. Na avaliação mais recente, foi registrado um leve movimento do pé, além de sensibilidade em partes das pernas.
As duas aplicações foram realizadas pelo neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, chefe do serviço de neurocirurgia do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro — considerado o maior hospital de emergências da América Latina —, que também acompanha a evolução clínica dos pacientes.
Outros casos e resultados anteriores
Entre os casos já divulgados pela equipe de pesquisa, destaca-se o de Bruno Drummond de Freitas, hoje com 31 anos, que ficou tetraplégico após um acidente de trânsito. Ele recebeu a polilaminina apenas 24 horas após o trauma.
Após a aplicação e um período de cinco meses de tratamento fisioterapêutico intensivo, Bruno recuperou os movimentos e voltou a andar, sem sequelas aparentes. O caso é frequentemente citado pelos pesquisadores como um dos resultados mais expressivos observados até o momento.
Situação regulatória e limites da pesquisa
A polilaminina já passou pela fase pré-clínica, com autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), incluindo testes em animais e aplicações pontuais em voluntários. No entanto, a substância ainda não recebeu autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para avançar para a fase clínica, etapa em que são avaliadas segurança, eficácia e possíveis efeitos colaterais em grupos maiores de pacientes.
Apesar disso, a Anvisa tem dado anuência técnica para os casos em que a aplicação é autorizada pela Justiça, o que tem permitido o uso experimental em situações específicas.
Reabilitação é considerada fundamental
A equipe responsável pela pesquisa reforça que, mesmo com sinais iniciais considerados promissores, todos os pacientes precisarão passar por processos intensos e específicos de reabilitação física. Segundo os pesquisadores, a fisioterapia especializada é um fator decisivo para o melhor aproveitamento dos efeitos da substância e para a consolidação de possíveis ganhos motores e sensoriais.
Especialistas destacam que, embora os resultados despertem grande expectativa, os dados ainda são preliminares e exigem cautela. A confirmação da eficácia da polilaminina depende da realização de ensaios clínicos controlados, com acompanhamento prolongado e critérios científicos rigorosos.
