Por Redação do Interior
Os números divulgados em 2025 sobre a violência contra mulheres em Alagoas revelam um cenário grave e, ao mesmo tempo, complexo. De um lado, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) contabilizou 4.531 registros de violações de direitos contra mulheres no estado ao longo do ano, com base em denúncias feitas por canais federais como o Ligue 180 e o Disque 100. De outro, a Polícia Civil de Alagoas (PCAL) registrou 8.924 boletins de ocorrência relacionados à violência doméstica e familiar entre janeiro e novembro.
A diferença entre os números, à primeira vista expressiva, não indica contradição, mas reflete metodologias distintas de coleta e objetivos diferentes de cada sistema. Enquanto o ministério reúne denúncias e relatos encaminhados à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos — que incluem pedidos de orientação, comunicações preliminares e registros que nem sempre evoluem para investigação criminal — a Polícia Civil contabiliza os casos que resultaram em registro formal de ocorrência, com tipificação penal e abertura de procedimento.
Na prática, nem toda denúncia ao Ligue 180 ou ao Disque 100 se transforma em boletim de ocorrência, seja por decisão da vítima, medo de represálias, dependência econômica ou dificuldade de acesso às delegacias. Da mesma forma, muitos casos registrados diretamente nas delegacias não passam pelos canais federais de denúncia, o que amplia a distância entre os bancos de dados.
Apesar da diferença numérica, os dois levantamentos apontam para o mesmo diagnóstico: a violência contra mulheres permanece estrutural e persistente em Alagoas. Ambos indicam redução em relação a 2024, mas os próprios órgãos reconhecem que a subnotificação continua sendo um dos principais desafios, o que impede uma leitura excessivamente otimista dos números.
Os dados da Polícia Civil reforçam essa avaliação ao mostrar que, mesmo com queda nos boletins de ocorrência, houve aumento na resposta repressiva do Estado, com 5.197 medidas protetivas solicitadas e 2.628 prisões de agressores em 2025. Esse movimento indica que os casos que chegam ao sistema de justiça tendem a ser mais graves ou recorrentes, especialmente aqueles envolvendo descumprimento de decisões judiciais.
Já os registros do Ministério dos Direitos Humanos revelam outra camada do problema: a violência que chega aos canais de escuta, mas nem sempre alcança a formalização criminal, evidenciando falhas no acolhimento, na proteção imediata e na confiança das vítimas nas instituições.
Assim, a leitura conjunta dos dados mostra que a redução nos indicadores não representa superação do problema, mas sim um alerta para a necessidade de políticas públicas permanentes, fortalecimento da rede de proteção e estímulo contínuo à denúncia. Mais do que números isolados, os dados do ministério e da Polícia Civil revelam diferentes faces de uma mesma realidade: a violência contra mulheres segue presente no cotidiano alagoano e exige respostas articuladas e duradouras do Estado.
