Por Redação do Interior
A prisão de uma mulher acusada de chamar outra de “macaca” em Marechal Deodoro, na Região Metropolitana de Maceió, voltou a chamar atenção para a persistência do racismo no cotidiano e para a distância entre os episódios reais e os números oficiais em Alagoas. O caso foi enquadrado como injúria racial, crime que, desde 2023, passou a ser equiparado ao racismo, permitindo prisão em flagrante e punições mais severas.
Embora o episódio tenha tido rápida resposta policial, os dados de 2025 mostram que situações semelhantes raramente aparecem de forma proporcional nas estatísticas do estado. De janeiro a novembro de 2025, a Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB-Alagoas registrou apenas sete denúncias de racismo e injúria racial — o mesmo número contabilizado em todo o ano de 2024. Em 2023, foram 21 denúncias, o que indica queda nos registros formais, não necessariamente nas ocorrências.
A própria OAB-AL alerta que esses números refletem, sobretudo, um cenário de subnotificação. Muitas vítimas não formalizam denúncia por medo, descrença nas instituições ou por tratarem as ofensas como conflitos pessoais, mesmo quando envolvem termos historicamente racistas, como no caso de Marechal Deodoro.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o contexto mais amplo da violência racial no estado. Dados do Atlas da Violência 2025 apontam que 98,8% das vítimas de homicídio em Alagoas eram pessoas negras, evidenciando a desigualdade racial estrutural e a vulnerabilidade dessa população, mesmo quando os crimes não são classificados diretamente como racismo.
No plano nacional, os números ajudam a contextualizar o problema. Dados parciais de 2025 indicam que o Brasil já ultrapassou 7 mil novos processos judiciais por racismo e injúria racial ao longo do ano, com crescimento em relação a 2024. O aumento é atribuído ao endurecimento da legislação e à maior disposição das vítimas em buscar o Judiciário.
Em Alagoas, no entanto, o caso de Marechal Deodoro mostra que a repressão penal ainda depende, em grande parte, da ocorrência de flagrantes ou de situações extremas para que haja responsabilização. O episódio mostra que, apesar dos avanços legais, o enfrentamento ao racismo no estado segue limitado pela baixa formalização das denúncias, mantendo uma discrepância entre a realidade vivida e os números oficiais.
