O que acontece depois do secar da última gota?

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Guilherme Moraes

Enquanto nordestino, cresci ouvindo histórias sobre as secas que nos atingem desde sempre. Lembro que um dos primeiros quadros que tocou meu eu miúdo foi Retirantes de Portinari, senti a fome daquela família como se fosse minha. Anos depois, mais maduro, voltei à mesma sensação ao ler Vidas Secas de Graciliano e O Quinze, de Rachel de Queiroz, este último me fez querer saber mais sobre os campos de concentração espalhados por todo Ceará para impedir que os flagelados à la Portinari alcançassem Fortaleza na seca de 1932.

Traumatizado com a escassez de chuva mesmo sem experimentar o seu drama, tornei-me um daqueles tantos que sacralizam o Velho Chico, daqueles que oram pelo cair da água e o seu abençoar de nossas colheitas, internas e externas. Julguei que estava fazendo o certo.

Não estava em Alagoas nos anos de 2010, soube apenas por notícias sobre a enchente ocorrida em junho desse ano. Espantei-me com seus estragos: 270 mil pessoas afetadas; 36 mortes; 1.131 feridos; 28 mil desalojados — as contemporâneas personagens de Portinari, espalhadas pelas estradas alagoanas, portando apenas um olhar perdido.

Foi em 2010 que percebi que a chuva pode ser tão perigosa quanto a seca.

De 2010 para cá, 15 anos se passaram. As chuvas se tornaram mais intensas, interditando por dias nosso acesso às praias e causando danos cada vez maiores ano após ano após ano…

Eventualmente a chuva cessa e o sol se abre. O fluido escoa para um lugar que não sei bem onde fica e a última gota seca, permitindo a nós, que ficamos por dias ilhados em casa acompanhando — frustrados e entristecidos — a destruição provocada por ela, o acesso à praia.

Mas a última gota seca e o sol se abre. As águas da chuva correm para algum lugar e deixam de habitar as ruas da cidade, então nós voltamos a ir à praia. Creio eu que nesse percurso, elas levam consigo nossa memória de turbulentos dias e tudo volta ao normal… até o ano que vem…

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