Guilherme Moraes
O jornal Monitor Mercantil, em matéria publicada no dia 19 de fevereiro deste ano, apresentou números da uberização brasileira a partir de seu caso mais simbólico: o motorista de Uber. Segundo a matéria, o lucro líquido de um motorista que trabalhe 60 horas semanais em São Paulo é, em média, R$ 4.319,19. No Rio de Janeiro, 54 horas semanais rendem R$ 3.304,93. Comparando ao salário mínimo em uma jornada de 44 horas semanais, somado com décimo terceiro e férias – que totaliza R$ 20.240,00 anuais, ou R$ 1.687,00 mensais – o periódico conclui que o trabalho de Uber não compensa ou, como a matéria afirma: muitas horas de trabalho para pouco retorno.
A beleza dos números é que eles falam o que quisermos, ou, em outras palavras, fornece a base “lógica” para sustentar nosso argumento. Por que, segundo o Monitor Mercantil, é melhor trabalhar em regime CLT ganhando um salário mínimo? Porque, ao realizar os cálculos, é “racionalmente” mais vantajoso essa modalidade.
Ora, então apresentemos outros números para sofisticar o debate. Se os motoristas de RJ se “derem ao luxo” (ironia) de trabalharem 44 horas semanais, eles ganhariam, em média, R$ 2.693,00 o que equivale a R$ 32,3 mil anuais. Caso um desses motoristas decida não trabalhar em dezembro e poupar R$ 225,00 por mês, vivendo com uma renda mensal de R$ 2.468,00 de janeiro a novembro, ele terá R$ 2.475,00 para aproveitar o fim do ano. Então, há uma diferença de 781,00 reais mensais em comparação ao trabalhador CLT. Fazendo o mesmo cálculo para o motorista de SP, considerando o salário mínimo do estado (R$ 1.804,00), chegamos a uma diferença de cerca de 900 reais entre o motorista de Uber e o trabalhador CLT, ou seja, o motorista de São Paulo recebe quase 50% a mais que a outra modalidade. Mas deixemos os números de lado: pergunto aos senhores e senhoras, 900 reais a mais por mês fazem diferença?
Obviamente, tanto eu quanto a matéria do Monitor Mercantil concordamos que R$ 2.468,00 (ou R$2.904,00, em SP) por mês é muito pouco. Também estamos de acordo que o suposto empreendedorismo do povo brasileiro “não se trata de vocação para empreender, embora ela exista muitas vezes, mas a maioria é por falta de oportunidade (que compense financeiramente) no mercado informal”. Aliás, os motoristas de Uber também concordam que as coisas não estão bem, como aponta estudo realizado por Robson André, Rosana da Silva e Rejane Nascimento, que recebeu como título a fala de um trabalhador de aplicativo: “Precário não é, mas eu acho que é escravo”.
Acontece que a vida continua após a “falta de oportunidade no mercado informal”, vida esta, citando apenas um de tantos elementos, atravessada pelas mudanças na expectativa de consumo devido à atuação das redes sociais. Em uma época em que ‘ser’ e ‘ter’ parecem sinônimos, pergunto novamente: 900 reais por mês fazem diferença?
Tal qual o trabalhador do estudo mencionado acima, os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros/as têm ciência de sua exploração. Por isso mesmo, eu não compartilho da furiosa surpresa de analistas que não entendem o motivo do descompasso entre a melhoria de avaliadores econômicos e a popularidade do governante. O exemplo do economista estadunidense Paul Krugman é o mais sintomático: mesmo afirmando que o Governo Biden melhorou tais avaliadores, ainda assim os Democratas perderam para Donald Trump. A não melhoria da popularidade do governante quando este avança nos índices econômicos suscita muitas interpretações, sobretudo a que atrela tal questão à disseminação de notícias falsas, constante na contemporaneidade. Mesmo concordando em parte com esta afirmação, gostaria de insistir em outro ponto.
Minha hipótese acredita na inteligência dos trabalhadores, e, em especial, dos brasileiros e brasileiras. Eles e elas percebem que a inflação está sob controle e que o desemprego está no menor número da série histórica, mas também sabem que o Brasil é o país mais desigual do mundo, que lidera a América Latina no número de milionários e é pátria de Eduardo Saverin, senhor com uma fortuna avaliada em R$ 227 bilhões (não se sabe como…). Os brasileiros e brasileiras reconhecem que o Governo Lula garantiu um aumento real do salário mínimo, ao mesmo tempo em que são bombardeados/as com informações de que este também é o Governo que realizou o maior Plano Safra, lançando uma linha de crédito de R$ 516,2 bilhões para o agronegócio tramar golpes de Estado, especular contra a economia nacional e vender 250 gramas de café a R$ 20,00.
Por fim, sim, os brasileiros e brasileiras aplaudem o esforço do governo em retirar o país do Mapa da Fome, mas, ao compararem seus pratos com os dos traficantes da Faria Lima, percebem que o deles é muito mais vistoso e colorido. Como os trabalhadores brasileiros sabem o que tem no prato dos Faria Limers? Por causa das redes sociais, arauto dos desejos humanos. Assim, antes de reclamar que o povo não reconhece os avanços econômicos do governo, façamos um esforço de sair da abstração, do mundo das Ideias, e entender como isso se realiza na prática.
Uma pergunta me vem à cabeça: 900 reais por mês fazem diferença?
