Por Redação do Interior
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou o combate ao feminicídio no centro do debate político regional ao propor, neste sábado (20), a criação de um pacto do Mercosul pelo fim da violência contra as mulheres. A iniciativa foi anunciada durante a abertura da 67ª Reunião de Chefes de Estado do bloco, em Foz do Iguaçu (PR), e reforça a tentativa do governo brasileiro de tratar a violência de gênero como um problema estrutural, que ultrapassa fronteiras nacionais e exige respostas coordenadas.
Em um dos trechos mais enfáticos de seu discurso, Lula alertou para a dimensão da tragédia vivida pela região. “A América Latina também ostenta o triste recorde de ser a região mais letal do mundo para as mulheres”, afirmou. Citando dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o presidente destacou que 11 mulheres latino-americanas são assassinadas todos os dias, um indicador que expõe a falência de políticas de prevenção e proteção em diversos países.
Como medida concreta, Lula anunciou o envio ao Congresso Nacional de um acordo internacional que permite a extensão de medidas protetivas entre os países do Mercosul. Na prática, mulheres que estejam sob proteção judicial em um país do bloco poderão ter o mesmo amparo ao cruzar fronteiras, reduzindo vulnerabilidades em situações de deslocamento forçado ou fuga de agressores.
“Enviei, ontem, para a ratificação do Congresso Nacional, acordo que permitirá que mulheres beneficiadas por medidas protetivas em um país do bloco tenham a mesma proteção nos demais países”, disse.
O presidente foi além e dirigiu-se diretamente ao Paraguai, que assume a presidência temporária do Mercosul, propondo a construção de um compromisso político regional. “Gostaria de propor ao Paraguai que trabalhemos para criar um grande pacto do Mercosul pelo fim do feminicídio e da violência contra as mulheres”, declarou.
Continuidade do discurso no Brasil
A proposta apresentada no Mercosul dialoga com o tom adotado por Lula nas últimas semanas no Brasil. Diante do aumento dos casos de feminicídio, o presidente tem defendido uma mobilização nacional, envolvendo não apenas o poder público, mas também a sociedade civil e, especialmente, os homens. Em declarações recentes, Lula afirmou que o enfrentamento da violência contra mulheres exige mudança cultural, responsabilização dos agressores e atuação preventiva do Estado.
Ao levar o tema para o centro da agenda regional, Lula amplia o alcance político do debate e tenta transformar o Mercosul em um espaço não apenas econômico, mas também de articulação social e de direitos humanos. A proposta de um pacto regional contra o feminicídio sinaliza uma inflexão no discurso tradicional do bloco, historicamente concentrado em comércio e integração produtiva.
Desafio regional
Especialistas apontam que a iniciativa pode fortalecer políticas de cooperação em áreas como segurança pública, justiça e proteção social, mas alertam que acordos internacionais só produzem efeitos concretos se acompanhados de investimento, estrutura institucional e fiscalização. Ainda assim, ao explicitar os números da violência e propor ações coordenadas, Lula reposiciona o combate ao feminicídio como uma urgência política regional, e não apenas um problema doméstico de cada país.
Em um cenário marcado por retrocessos democráticos e avanço do crime organizado em partes da América Latina, o discurso do presidente brasileiro busca associar integração regional à defesa da vida, da democracia e dos direitos das mulheres — um eixo que tende a ganhar protagonismo nos próximos debates do Mercosul.
