Acordo Mercosul–União Europeia avança, mas resistência agrícola expõe divisões internas na UE

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Por Redação do Interior

As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cúpula do Mercosul indicam que o acordo entre o bloco sul-americano e a União Europeia entrou em sua fase decisiva, ainda que cercado por resistências políticas internas no lado europeu. Ao afirmar que “a França, sozinha, não conseguirá barrar o acordo”, Lula sinaliza que a correlação de forças dentro da UE tende a favorecer a conclusão de um tratado negociado há mais de 20 anos.

“O acordo será firmado e eu espero que seja assinado no primeiro mês da presidência do Paraguai, pelo companheiro Santiago Peña”, afirmou o presidente brasileiro, ao reforçar a expectativa de que a formalização ocorra em janeiro. A fala veio após conversa direta com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que, segundo Lula, declarou estar pronta para assinar o pacto no início do próximo ano.

Adiamento frustra plano europeu

A Comissão Europeia planejava selar o acordo neste sábado, o que criaria a maior zona de livre comércio do mundo, reunindo mais de 700 milhões de consumidores. O plano, no entanto, foi alterado nos últimos dias após a Itália se alinhar à França para exigir um adiamento, sob o argumento de que o texto atual não oferece proteção suficiente aos agricultores europeus.

A movimentação de Roma foi decisiva para o adiamento, mesmo sem representar um veto definitivo. Diferentemente da França, que mantém oposição mais explícita ao acordo, a Itália adota uma postura de cautela estratégica: pede mais tempo para negociar salvaguardas e administrar pressões internas, especialmente do setor agrícola, sensível à concorrência de produtos do Mercosul, como carnes, grãos e derivados.

O que disse a primeira-ministra italiana a Lula

Segundo relato do próprio presidente brasileiro, a primeira-ministra Giorgia Meloni reconheceu, em conversa direta, que enfrenta dificuldades políticas internas para apoiar a assinatura imediata do tratado. Ela teria argumentado que precisa dialogar com produtores rurais e setores do Parlamento italiano antes de formalizar o apoio, mas assegurou que a Itália não é contra o acordo em si.

A leitura feita pelo governo brasileiro é de que Roma busca ajustes pontuais e tempo político, e não o bloqueio definitivo do tratado — uma diferença relevante em relação à França, que tenta liderar um polo de resistência mais duro dentro da União Europeia.

Um acordo que ultrapassa o comércio

O impasse expõe as contradições internas da UE em temas comerciais. Enquanto o bloco defende a ampliação de acordos estratégicos para reduzir dependências externas e ganhar competitividade global, enfrenta dificuldades para conciliar interesses nacionais quando setores tradicionais, como a agricultura, se sentem ameaçados.

Para o Mercosul, o acordo representa não apenas ganhos comerciais, mas também um reposicionamento geopolítico. Para a União Europeia, trata-se de uma resposta estratégica em um cenário global marcado por tensões comerciais, protecionismo crescente e disputa por mercados com Estados Unidos e China.

Janeiro como teste decisivo

O adiamento da assinatura para janeiro é visto por Brasília como um ajuste político, não como um retrocesso. A expectativa é que, com a presidência paraguaia do Mercosul e o apoio da Comissão Europeia, o acordo avance mesmo diante das resistências de parte dos Estados-membros.

Resta saber se França e Itália conseguirão ampliar sua influência dentro do bloco ou se ficarão isoladas diante de uma maioria favorável à formalização do tratado. O desfecho deve definir não apenas o futuro do acordo Mercosul–UE, mas também os limites do consenso europeu em temas estratégicos de comércio internacional.

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