Da Redação
Na primeira semana de seu movimento para disputar a Presidência da República em 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu início à pré-campanha de forma isolada, cercado por ceticismo do mercado financeiro e da classe política. Diante da desconfiança sobre a viabilidade de seu nome, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fez recuos públicos, ajustou discursos e passou a tentar se antecipar a escândalos que tendem a ser explorados por adversários ao longo da campanha.
Na sexta-feira (5), ao anunciar que havia sido escolhido pelo pai como candidato do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, Flávio buscou imediatamente um fiador político: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome preferido do centrão e da Faria Lima, mas preterido por Jair Bolsonaro. O senador afirmou ter o apoio de Tarcísio e disse não enxergar um cenário em que ambos fossem candidatos.
A versão, no entanto, foi relativizada pelo próprio governador, que só confirmou o apoio na segunda-feira (8) e afirmou que a direita deveria ter outras opções além de Flávio, sinalizando resistência ao projeto do senador.
A primeira derrapada da pré-campanha veio apenas dois dias depois do anúncio. No domingo (7), Flávio declarou que poderia não levar a candidatura até o fim, mas que isso teria um “preço”. A fala foi vista, entre lideranças da centro-direita, como um movimento que funcionaria como um balão de ensaio para negociar pautas de interesse da família Bolsonaro, como a anistia a condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro — o que incluiria o ex-presidente, atualmente cumprindo pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Diante da repercussão negativa, o senador recuou. No dia seguinte, em entrevista à Folha, afirmou que sua candidatura era “irreversível”. Disse ainda que o “preço” citado seria o perdão total a Jair Bolsonaro e a reversão de sua inelegibilidade, algo que, segundo ele próprio, dificilmente ocorreria antes das eleições. Nesse cenário, afirmou que o “Bolsonaro na urna” seria ele.
“Joguei com as palavras para falar de preço, mas a condição é: Bolsonaro tem que estar livre e nas urnas”, declarou.
Mesmo aliados do PL apontam como fragilidades de Flávio a baixa viabilidade eleitoral e a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro. Diante disso, o senador passou a adotar uma estratégia de antecipação de crises, tentando neutralizar escândalos que marcam sua trajetória política.
Na última semana, publicou dois vídeos em seu canal no YouTube nos quais apresenta sua versão sobre episódios que devem ser explorados durante a campanha: a acusação de rachadinha operada por seu ex-assessor Fabrício Queiroz e a compra de uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. Os vídeos trazem trechos de entrevistas concedidas a podcasts.
Em 2021, o STF decidiu reconhecer o foro especial do senador e anulou provas da investigação sobre a rachadinha. Sobre o caso, Flávio afirma não temer novas apurações. “Pode investigar à vontade, vai ser só a comprovação do uso da máquina pública para perseguir adversário político. Essas coisas estão todas arquivadas. Nunca tive um processo criminal iniciado contra mim por causa disso. É uma espuma danada”, disse.
Ao tratar da compra da mansão, em entrevista ao canal Fala Guerreiro Cast, o senador afirmou que o imóvel foi adquirido por meio de financiamento bancário e quitado com rendimentos da advocacia. “Pode tacar a pedra que quiser, que pra mim é matar no peito e sair jogando”, afirmou.
No esforço de reduzir a rejeição ligada ao pai, Flávio tem afirmado que sua candidatura permitiria ao eleitor conhecer “um outro Bolsonaro”, com perfil mais pacificador. Destacou, inclusive, diferenças simbólicas, como o fato de ter tomado vacinas contra a Covid-19. “Tenho os mesmos princípios, tenho o sangue Bolsonaro, mas nenhum ser humano é igual ao outro”, afirmou.
Investigações ampliam escrutínio sobre a pré-candidatura
A pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro ocorre, no entanto, sob forte escrutínio por investigações que associam sua trajetória política a milícias no Rio de Janeiro e a irregularidades financeiras envolvendo negócios pessoais, o que adiciona um elemento permanente de ceticismo ao início de sua campanha.
Suspeitas de ligações com milícias cariocas
Autoridades e promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) identificaram, em apurações que antecedem as investigações sobre a rachadinha, indícios de relações indiretas entre auxiliares de Flávio Bolsonaro e grupos milicianos — organizações paramilitares formadas por ex-policiais que controlam territórios no estado e são responsáveis por crimes como extorsão, homicídios e exploração ilegal de serviços.
Relatórios e investigações apontaram que contas bancárias de Adriano Magalhães da Nóbrega, um dos principais líderes da milícia Escritório do Crime, foram utilizadas para repassar recursos ao ex-assessor Fabrício Queiroz, apontado como operador do esquema de desvio de salários no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Além disso, a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega foram nomeadas no gabinete de Flávio Bolsonaro por longos períodos, o que gerou questionamentos sobre a proximidade entre o entorno do parlamentar e integrantes de milícias investigadas pelo MPRJ.
Flávio nega qualquer ligação com milicianos e atribui as nomeações à indicação de assessores. Ainda assim, essas conexões históricas continuam sendo citadas por procuradores e críticos como pontos que exigem esclarecimento, especialmente em um contexto de disputa presidencial.
Loja de chocolates e suspeitas de lavagem de dinheiro
Paralelamente às suspeitas de vínculos com milícias, investigações do Ministério Público fluminense também miraram um empreendimento comercial ligado ao senador: uma franquia da rede de chocolates Kopenhagen no shopping Via Parque, na Barra da Tijuca, da qual Flávio foi sócio.
Promotores identificaram volumes considerados anormais de depósitos em dinheiro vivo na conta da loja entre 2015 e 2018, em valores repetidos e fracionados — um padrão atípico para o setor e que, segundo o MP, pode indicar lavagem de dinheiro.
De acordo com as investigações, a loja teria recebido mais de 1.500 depósitos em espécie, muitos fora de períodos de alta sazonalidade, como a Páscoa. Para os investigadores, isso reforçou a hipótese de que o estabelecimento poderia ter sido usado para disfarçar a origem de recursos desviados no esquema da rachadinha.
As suspeitas resultaram em mandados de busca e apreensão e quebras de sigilo bancário e fiscal. A defesa de Flávio Bolsonaro sustenta que não há comprovação de irregularidades e afirma que o senador é alvo de perseguição política.
Relatos posteriores de um ex-sócio da chocolateria afirmaram ainda que Flávio teria usado R$ 200 mil em espécie para abrir o negócio e recebido valores expressivos sem a devida declaração fiscal, o que deu origem a disputas judiciais adicionais sobre a gestão da empresa.
Impacto político em 2026
As duas frentes — investigações sobre ligações indiretas com milícias e o escândalo da loja de chocolates — formam um quadro de vulnerabilidades para a campanha de Flávio Bolsonaro. Analistas avaliam que, em um ambiente já marcado pelo distanciamento do centrão e pela rejeição a figuras associadas a escândalos de corrupção ou ao crime organizado, esses fatores podem pesar negativamente na avaliação de eleitores e potenciais aliados.
Embora Flávio tente se desvincular dessas controvérsias e sustente que não há provas de crime, o histórico de investigações segue como um dos principais obstáculos à consolidação de sua candidatura ao Planalto, em um cenário de forte polarização política no país.
