Da Redação
Os dados das Estatísticas do Registro Civil 2024, divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (10), mostram um país em transformação acelerada nos padrões familiares, na dinâmica de fecundidade e na estrutura etária. A fotografia revela movimentos simultâneos — alguns inéditos, outros já consolidados — que ajudam a explicar o redesenho social brasileiro.
Divórcios têm primeira queda em quatro anos e guarda compartilhada se torna regra
Após três anos de alta, o Brasil registrou 428.301 divórcios em 2024, queda de 2,8% frente a 2023. A última redução havia sido em 2020. A queda foi puxada especialmente pelo Centro-Oeste (-11,8%) e Nordeste (-3,1%). O Norte foi o único a registrar aumento (9,1%).
Mais do que o volume, o dado mais simbólico está na mudança do arranjo familiar: pela primeira vez, a guarda compartilhada (44,6%) superou a guarda materna (42,6%) entre divórcios judiciais com filhos menores. Há uma década, o cenário era o oposto, com domínio absoluto da guarda concedida às mães.
A inversão confirma o impacto da Lei 13.058/2014, que passou a priorizar a guarda compartilhada mesmo sem consenso entre os pais. A tendência aponta para uma redefinição dos papéis parentais e maior corresponsabilidade no cuidado dos filhos.
O tempo médio entre casamento e divórcio permaneceu em 13,8 anos. Homens seguem se divorciando mais tarde (44,5 anos) do que mulheres (41,6 anos).
Casamentos voltam a crescer, mas seguem abaixo do período pré-pandemia
O Brasil registrou 948.925 casamentos civis em 2024, alta modesta de 0,9%. Apesar da retomada, o país ainda não alcançou o nível pré-Covid. O movimento mostra um retorno gradual da formalização conjugal, mas com ritmo insuficiente para recuperar a queda iniciada em 2016 e agravada pela pandemia.
O Centro-Oeste liderou a alta (2,6%), enquanto o Nordeste foi o único com recuo (-1,4%). Dezembro segue como o mês preferido para casar.
Casamentos entre pessoas do mesmo sexo batem recorde histórico
O destaque positivo ficou com os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, que atingiram 12.187 registros, 8,8% a mais que em 2023 — maior marca desde o início da série (2013).
As uniões entre mulheres representaram 64,6% do total e cresceram 12,1% em um ano. O avanço reflete maior aceitação social, segurança jurídica e estabilidade da resolução do CNJ que garante o direito ao casamento igualitário.Todas as regiões registraram alta, exceto o Norte.
Natalidade cai pelo sexto ano e país acelera processo de envelhecimento
O número de nascimentos caiu 5,8%, totalizando 2,38 milhões — menor nível em cinco décadas. É o sexto ano consecutivo de redução, tendência consistente desde 2019 e que coloca o Brasil no grupo de países de fecundidade persistentemente baixa.
A queda atinge todas as regiões, com Sudeste, Norte e Sul registrando recuos acima de 6%.
O dado mais emblemático é a mudança no perfil das mães: proporção de mães com até 24 anos caiu de 51,7% (2004) para 34,6% (2024)
Maternidade adolescente (até 19 anos) recuou para 11,3%, mas ainda representa mais de 267 mil nascimentos.
Idade materna mais elevada torna-se regra, influenciada por escolarização, mercado de trabalho e maior planejamento reprodutivo.
Há também aumento de partos de mulheres estrangeiras residentes no Brasil, sobretudo venezuelanas.
Mortes crescem 4,6% e sobremortalidade masculina segue brutal
O país registrou 1,50 milhão de óbitos em 2024, alta de 4,6%. Como esperado, idosos representam a maioria (71,7%), reflexo direto do envelhecimento populacional.
Mas o dado mais chocante é a persistência da sobremortalidade masculina por causas externas, como homicídios, acidentes, suicídios e afogamentos:
Homens morreram 4,7 vezes mais do que mulheres por causas não naturais.
Entre jovens de 15 a 29 anos, a desproporção chega a 7,7 vezes.
A violência e os acidentes continuam sendo um dos principais fatores que interrompem vidas jovens, sobretudo masculinas.Todas as regiões registraram aumento de óbitos, com destaque para Sul (7,4%) e Centro-Oeste (6,2%).
Um Brasil que se transforma — e exige novas políticas públicas
Os dados do IBGE reforçam que o país atravessa um ciclo demográfico de mudança estrutural:
Menos nascimentos e mais mortes, impulsionados pelo envelhecimento
Casamentos mais tardios e mais recasamentos
Avanço da igualdade parental nas separações
Crescimento consistente das uniões LGBTQIA+
Redução da maternidade precoce
O conjunto revela um país mais urbano, mais escolarizado, mais diverso — e demograficamente mais velho.
A trajetória aponta para desafios urgentes: saúde pública voltada à população idosa, segurança para jovens, políticas de infância, adaptação do mercado de trabalho e redes de apoio familiar que acompanhem novos arranjos.
