Promotores argentinos acusam Cristina Kirchner de ser “a destinatária final” dos subornos no caso dos Cadernos.

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A acusação alega que grandes somas de dinheiro pagas por empreiteiras de obras públicas foram parar no apartamento do ex-presidente argentino.

Mar Centenera El Pais

Cristina Kirchner foi a “beneficiária final” de subornos ligados a projetos de obras públicas, segundo a denúncia apresentada na quinta-feira perante o tribunal que julga o maior caso de corrupção da história argentina , o chamado Caso dos Cadernos. O procurador Carlos Stornelli argumentou em sua denúncia que grande parte do dinheiro arrecadado foi distribuída entre diversos órgãos do governo e, no caso de grandes somas, foi parar no apartamento da ex-presidente no bairro nobre da Recoleta. Kirchner é a principal ré no processo, que busca confirmar ou descartar a existência de uma associação ilícita dedicada à arrecadação de subornos durante os 12 anos de seus governos (2003-2015). Ao todo, 87 pessoas são rés, em sua maioria ex-funcionários políticos de alto escalão e empresários.

A reconstituição dos eventos pelo Ministério Público no primeiro — e principal — dos seis casos agrupados no julgamento ocupou as cinco primeiras audiências. Os depoimentos de testemunhas colaboradoras, como o financista Ernesto Clarens e o ex-funcionário do Ministério do Planejamento, Claudio Uberti, foram essenciais para completar o quadro do suposto esquema de suborno ilegal que veio à tona após a publicação dos cadernos de anotações mantidos por Óscar Centeno, motorista de figuras poderosas.

Os depoimentos concordam que o mecanismo de coleta de dados para o julgamento teve início durante a presidência de Néstor Kirchner (2003-2007). Foi interrompido após sua morte, em 2010, por aproximadamente um ano, e depois retomado.

Segundo a acusação, as malas de dinheiro foram recolhidas em sedes de empresas ou locais públicos, como hotéis ou estacionamentos. O destino era o Ministério do Planejamento, chefiado por Julio de Vido; a residência presidencial em Olivos; a Casa do Governo; ou a residência particular dos Kirchner. Há suspeitas de que parte do dinheiro recolhido tenha sido desviada para a cidade patagônica de Río Gallegos.

Roberto Baratta, braço direito do Ministro do Planejamento Federal, Julio de Vido, é acusado de ser o elo entre os empresários e os intermediários. Entre estes últimos, segundo a Procuradoria, destacam-se o próprio De Vido e Daniel Muñoz, que era secretário dos Kirchner. O ex-presidente é considerado o suposto chefe da associação ilícita e o principal beneficiário dos fundos obtidos ilegalmente. Kirchner “acabou sendo a única com capacidade real e efetiva para decidir como e o que fazer com a maior parte do dinheiro entregue como suborno”, enfatizou a denúncia da Procuradoria.

Kirchner nega as acusações

Durante a audiência de quinta-feira, foi lida a declaração de Kirchner contra as acusações que lhe foram imputadas. “Reitero minha negação categórica e definitiva de ter participado de qualquer tipo de associação ilícita, bem como de ter cometido qualquer crime.”

A ex-presidente de 72 anos já cumpre pena de seis anos de prisão em outro caso de corrupção e está em prisão domiciliar desde junho passado. Agora, ela enfrenta possíveis penas de cinco a dez anos. “Cinco acusações foram feitas contra mim e, inacreditavelmente, fui acusada e processada em três casos distintos por supostamente liderar a mesma associação ilícita que, segundo todas as alegações, foi criada para obter fundos ilícitos de empresários que receberam contratos de obras públicas entre 2003 e 2015”, declarou Kirchner em sua declaração por escrito.

Durante o julgamento, os advogados dos réus tentarão contestar a autenticidade dos cadernos, a principal prova do caso. Os advogados de Kirchner já solicitaram, sem sucesso, o arquivamento do processo, pois duas análises periciais detectaram inúmeras alterações, rasuras e correções feitas por terceiros nas anotações de Centeno. O Supremo Tribunal rejeitou todos os recursos e abriu caminho para o julgamento.

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