Ausências que falaram mais alto no Planalto

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Lucia Barbosa

A fala de Gleisi Hoffmann, tentando minimizar a ausência de Hugo Motta e Davi Alcolumbre na cerimônia de sanção da nova faixa de isenção do Imposto de Renda, cumpre o papel institucional de evitar um incêndio público. Mas, na prática, é impossível ignorar o tamanho do recado enviado pela cúpula do Congresso ao Palácio do Planalto.

A reforma do Imposto de Renda era uma das bandeiras mais simbólicas de Lula — um aceno à classe média, uma resposta a promessas acumuladas desde 2022. Era também uma chance de o governo exibir unidade acompanhado das duas Casas legislativas. Não aconteceu.

A ausência de Alcolumbre não é mero detalhe de agenda. É política. É pressão. É reação direta à indicação de Jorge Messias para o Supremo — um nome que o presidente do Senado tentou, até o último minuto, evitar. O governo insiste na versão de que a relação segue firme, mas bastidores do próprio Congresso indicam um Alcolumbre contrariado, enxergando na indicação uma afronta, mesmo sabendo que a indicação é uma prerrogativa do Presidente da República.

Hugo Motta, por sua vez, não está menos irritado. A Câmara vive dias turbulentos, pressionada por duas frentes: o incômodo com o Planalto e o desgaste causado pela crise do Banco Master, que respinga, por enquanto , em pessoas próximas a parlamentares do centrão e amplia o desconforto com exposições negativas na imprensa.

A política, neste momento, opera num tabuleiro muito mais complexo que o importante ato de ampliar a isenção do IR para famílias da classe média. O que se tem é um relacionamento institucional cada vez mais condicionado por disputas de poder — STF, verbas, investigações e controle de pautas.

Gleisi diz que a ausência “não ofusca” o apoio. Mas, na política, gestos silenciosos sempre falam mais alto. E o gesto de hoje ecoou por Brasília inteira.

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