Da Redação
A Argentina atravessa um momento crítico em saúde pública, com quedas inéditas na cobertura de vacinas essenciais. Imunizantes que antes ultrapassavam 90% de adesão agora estão abaixo de 50%, abrindo espaço para o retorno de doenças antes controladas. A disparada de surtos de sarampo, coqueluche e o avanço constante da tuberculose ilustram o impacto direto do enfraquecimento das políticas de imunização e da circulação de discursos antivacina.
Os dados mais recentes mostram que a cobertura da tríplice viral despencou para 46,7%, a proteção contra poliomielite recuou para 47,6% e a vacina contra difteria, tétano e coqueluche caiu para 46,4%. Entre adolescentes, a imunização contra HPV não passa de 55% entre meninas e 51% entre meninos. No norte do país, a aplicação da vacina contra febre amarela caiu pela metade em apenas um ano.
O retorno de doenças já controladas confirma o risco: 35 casos de sarampo neste ano, 516 casos de coqueluche e cinco mortes infantis em Buenos Aires, além de um aumento de 65% nos casos de tuberculose.
Como em outros países, o discurso anticiência amplifica danos
O recrudescimento da desinformação dificulta ainda mais a resposta sanitária. A realização de uma conferência no Congresso argentino — promovida pela deputada María Inés Marilú Quiroz, crítica da vacinação obrigatória — é vista por entidades médicas como simbólica do espaço que teses negacionistas vêm ganhando. Sociedades científicas alertam que questionar vacinas em ambientes oficiais mina a confiança pública justamente quando a cobertura está em níveis críticos.
O caso argentino evoca paralelos com a experiência brasileira durante a pandemia. O governo Jair Bolsonaro adotou uma postura aberta de desconfiança em relação às vacinas contra a COVID-19, promoveu medicamentos sem eficácia e atrasou a aquisição de imunizantes. A CPI da Pandemia concluiu que essa condução teve impacto direto sobre o número de mortes evitáveis e agravou o colapso sanitário.
Um contraponto regional: a reconstrução da vacinação no Brasil sob o governo Lula
Enquanto a Argentina lida com a erosão da confiança pública, o Brasil vive uma trajetória oposta desde 2023. Após anos de queda contínua na vacinação infantil — processo que começou antes da pandemia, mas que se agravou durante o governo Bolsonaro com o avanço de discursos antivacina “a partir de cima” — o governo Lula retomou campanhas nacionais de imunização, reativou estratégias de comunicação pública e destinou recursos adicionais ao Programa Nacional de Imunizações.
A reversão começou a aparecer nos números: estados e municípios registram aumento na vacinação de crianças, especialmente contra poliomielite, tríplice viral e outras vacinas básicas. O Ministério da Saúde recuperou ações que haviam sido desmontadas, como a busca ativa de não vacinados, a expansão de salas de vacinação e campanhas específicas em escolas.
Para especialistas, o Brasil mostra que é possível reconstruir a confiança na imunização quando há liderança política clara, comunicação baseada em ciência e compromisso contínuo com a prevenção. O caso brasileiro serve como contraponto direto à crise argentina: onde políticas públicas são estruturadas para fortalecer a vacinação, surtos são evitados; onde o Estado legitima discursos negacionistas, doenças retornam.
A lição que a Argentina tenta evitar
O alerta das sociedades científicas argentinas é firme: permitir que o negacionismo se institucionalize ameaça a saúde coletiva, especialmente quando a cobertura vacinal já está em níveis historicamente baixos. A comparação regional deixa evidente que a postura dos governantes tem impacto mensurável no adoecimento da população.A reconstrução brasileira aponta um caminho. E a crise argentina mostra o que acontece quando ele não é seguido.
