Protesto denuncia impactos da mineração de sal-gema e contradições na agenda ambiental da empresa
Da Redação
Ativistas, moradores atingidos e movimentos sociais realizaram, neste sábado (15), um ato em frente à sede da Braskem, em Maceió, para denunciar os impactos da exploração de sal-gema e manter viva a memória dos cinco bairros destruídos pelo afundamento do solo. A mobilização ocorreu em um momento considerado simbólico pelos participantes: enquanto a empresa tenta reforçar, durante a COP 30, um discurso de sustentabilidade no cenário internacional, em Alagoas milhares de famílias ainda lidam com remoções, prejuízos cotidianos e a perda definitiva de suas casas.
O protesto reuniu representantes de organizações sociais que cobram reparação integral aos moradores atingidos e responsabilização da mineradora pelos danos ambientais e urbanos acumulados ao longo das últimas décadas. Para os movimentos, há um contraste evidente entre a narrativa de “transição sustentável” apresentada pela Braskem e o colapso geológico que forçou mais de 60 mil famílias a deixarem seus bairros desde 2018. A ação também dialogou com manifestações nacionais, como a Marcha Global pelo Clima, em Belém (PA), reforçando a articulação de pautas ambientais em escala mais ampla.
Sucateamento, riscos ambientais e denúncias na antiga fábrica do Pontal da Barra
Enquanto a mobilização ocupava as ruas de Maceió, outro debate ganhava força: o futuro da antiga fábrica de cloro-soda da Braskem, no Pontal da Barra. O desmonte da unidade, iniciado após o encerramento da mineração de sal-gema no estado, tem levantado preocupações entre especialistas e trabalhadores. Relatos de operários e dirigentes sindicais apontam para um passivo ambiental significativo, marcado por décadas de vazamentos de substâncias químicas — entre elas o Dicloroetano — e pela degradação das instalações industriais.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Petroleiros, Petroquímicos, Químicos e Plásticos de Alagoas e Sergipe (Sindipetro AL/SE), o sucateamento da planta teria provocado contaminação do lençol freático e colocado em risco tanto moradores do entorno quanto os próprios trabalhadores. Imagens feitas recentemente dentro da unidade, que mostram tubulações improvisadas e equipamentos deteriorados, reforçam a percepção de abandono da estrutura. O sindicato avalia que, apesar de a empresa afirmar que a fábrica passará a operar como centro logístico para movimentação de Dicloroetano, as condições atuais exigem inspeções técnicas rigorosas antes de qualquer uso, sobretudo devido ao potencial inflamável e tóxico do produto.
Demissões, precarização e resistência sindical
A transição operacional também impactou diretamente o quadro de funcionários. Embora a empresa negue demissões em massa e sustente que o número de desligamentos segue o índice anual de rotatividade, o Sindipetro contabiliza dezenas de trabalhadores dispensados apenas em 2025 e estima que cerca de 240 possam perder seus empregos com a paralisação das atividades no Pontal da Barra. A entidade afirma que a ausência de diálogo, a suspensão de negociações coletivas e a falta de garantias de indenização reforçam um padrão de gestão que, historicamente, teria priorizado metas financeiras em detrimento de compromissos socioambientais.
Em nota, a Braskem reafirmou que está implementando uma “transformação estratégica” em sua unidade de PVC em Marechal Deodoro e que a planta do Pontal da Barra continuará operando como área logística de Dicloroetano. A empresa também reiterou que não houve demissões em massa e que sua atuação no estado segue alinhada ao desenvolvimento econômico local.
Um passivo social, ambiental e trabalhista sem resposta

O conjunto de denúncias — das manifestações populares às do estado da antiga planta industrial — evidencia um cenário de disputas e de demandas ainda abertas. A análise do contexto mostra que a Braskem não tem atuado de forma satisfatória em nenhuma das frentes que lhe cabem: não garantiu reparação plena às pessoas desalojadas, tampouco ressarciu de maneira proporcional os prejuízos impostos ao município de Maceió e ao Estado de Alagoas; não avançou de modo consistente na recuperação das áreas degradadas pela exploração de sal-gema; e tampouco assegurou condições dignas e seguras aos trabalhadores que seguem expostos diariamente a riscos. Enquanto a empresa tenta consolidar um discurso de modernização e sustentabilidade, persiste um passivo social, ambiental e trabalhista que continua sem solução efetiva.
