As crônicas bem-humoradas de Felipe De Vas revelam um artista que domina a ironia local

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Lucia Barbosa

As crônicas faladas e bem-humoradas de Felipe De Vas vêm se consolidando como uma das expressões mais inteligentes da cena cultural alagoana. Com olhar afiado e ironia precisa, o artista tem a habilidade rara de transformar episódios do cotidiano em comentários cheios de graça, sutileza e crítica social — sempre com a leveza de quem domina a arte de dizer muito sem precisar levantar a voz.

Um exemplo recente é o vídeo sobre a roda-gigante instalada na orla de Maceió. Em poucos segundos, Felipe costura humor, política, memória afetiva e cultura local com uma naturalidade que só quem conhece profundamente a própria cidade é capaz de fazer. Ele brinca com a ausência da cabine 13 — número favorito de Zagallo — e, com uma piscadela, insinua que o “12B” pode ter uma carga política nada acidental. É o tipo de humor que diverte, provoca e, ao mesmo tempo, revela muito sobre o ambiente que o cerca.

Mas a força da crônica não está apenas na piada. Ao lembrar que a antiga Praça Multieventos, onde ele já reuniu + de 20 mil pessoas, virou uma praça “unieventos”, Felipe aponta, com elegância, para a perda de espaço cultural e para o impacto direto da instalação da roda-planista sobre os artistas locais. Ele faz crítica — mas a crítica chega embrulhada em inteligência, jogo de palavras e ironia delicada, que convida à reflexão.

Felipe tem esse dom: o de rir sério. O de usar a palavra como quem toca um violão, escolhendo cada nota de modo que a graça nunca seja vazia. Ao chamar a Praça Multieventos — onde já fez a multidão cantar — de praça “unieventos”, o humor vira melancolia, e a melancolia vira crítica, e a crítica se dissolve em poesia. Nada é dito de forma dura. Tudo é oferecido como quem entrega uma flor que também tem espinhos.

Felipe De Vas se destaca justamente por isso: por transformar a vida em matéria de humor, por enxergar poesia nos detalhes e política nos bastidores, e por oferecer ao público uma leitura bem-humorada do mundo real, sem jamais abandonar o charme da crônica clássica.

Ele ri da cidade como quem a ama e, por amar, deseja que ela se enxergue melhor. Suas crônicas são pequenas janelas, abertas com delicadeza, por onde Maceió observa a si mesma — e, surpresa, descobre que até a roda-gigante gira com mais sentido quando ele comenta.

Felipe De Vas é artista, é cronista, é intérprete de um humor que não agride: revela.

E o que ele revela, com doçura e ironia viva, é justamente o que a cidade mais precisa enxergar.

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