Bienal do Livro celebra Graciliano Ramos e reafirma a atualidade ética de sua obra

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Debate entre Ricardo Ramos e Cida Pedrosa destaca o legado do escritor alagoano e sua visão crítica sobre o homem e a sociedade brasileira

Da Redação

A noite de sábado (8), penúltimo dia da Bienal do Livro de Alagoas, foi dedicada a um dos nomes mais influentes da literatura brasileira: Graciliano Ramos, o escritor que transformou a experiência humana em arte e reflexão moral. No Centro de Convenções de Maceió, a programação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos reuniu dois grandes estudiosos de sua obra — Ricardo Ramos, neto do autor, e Cida Pedrosa, vencedora do Prêmio Jabuti — para discutir a permanência e a potência do legado graciliânico.

O reencontro com a voz crítica de Graciliano

Mais que uma celebração literária, o encontro foi uma reafirmação do papel social da literatura. Graciliano, conhecido por seu olhar severo e compassivo sobre o Brasil profundo, permanece como um dos autores que melhor compreendeu as contradições da alma humana diante da desigualdade e da injustiça. Sua crítica social, sempre entrelaçada à dimensão ética do indivíduo, ainda ecoa como uma lição de lucidez num país que insiste em repetir velhos dramas.

A reedição de suas obras pela Imprensa Oficial, incluindo a versão em braile de A Terra dos Meninos Pelados, reforça essa atualidade: o gesto de tornar Graciliano acessível a novos públicos é também uma forma de resistência cultural. Em tempos de dispersão e superficialidade, voltar a Graciliano é redescobrir a densidade e o rigor da escrita comprometida com o humano.

A “ética do eu” e a força dos atravessamentos

Em análise recente publicada neste mesmo jornal, o cientista político e pesquisador de literatura, Guilherme Moraes, destacou o que chama de “Ética do Eu através do Mundo e do Outro” como o eixo central da obra graciliânica. Essa leitura propõe que, em romances como Caetés, São Bernardo, Angústia e Vidas Secas, Graciliano expõe a tensão constante entre o indivíduo, o meio e o outro — uma tríade que define a condição humana e a moldura social do Brasil de seu tempo.

Paulo Honório e Luís da Silva, protagonistas de São Bernardo e Angústia, respectivamente, são expressões dessa luta interior. Ambos descobrem, tarde demais, que suas tragédias pessoais nascem da brutalidade das relações que os cercam. A “vida agreste” e os “numerosos chiqueiros” que habitam são metáforas de um país onde o homem se vê aprisionado pela estrutura social e pela própria incapacidade de amar e compreender o outro.

Essa ética, que transforma o sofrimento e o conflito em estética, faz de Graciliano um autor universal. Sua escrita, marcada pela precisão e pela secura, não é apenas um exercício de estilo — é um ato moral. Ao depurar a linguagem, ele também depura a consciência de seus personagens, expondo a miséria e a grandeza que coexistem em cada um.

O legado vivo do “homem mais ético das letras brasileiras”

Aos 133 anos de seu nascimento, Graciliano Ramos segue como um espelho incômodo e necessário do Brasil. Sua literatura ultrapassa a dicotomia ideológica que dividiu gerações — entre católicos e comunistas, entre realistas e idealistas — e permanece como uma das mais agudas leituras da identidade nacional.

Em um tempo em que a pressa ameaça substituir o pensamento e o espetáculo tenta suplantar a arte, reler Graciliano é um gesto de reencontro com a essência da literatura: compreender o mundo para compreender a nós mesmos.

Na Bienal, entre memórias, análises e celebrações, ficou a sensação de que Graciliano Ramos nunca partiu. Continua vivo em cada leitor que se inquieta, em cada palavra que resiste e em cada olhar que busca entender o Brasil por dentro — com a mesma coragem ética e humana que fez dele o marior romancista de sua geração.

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