Carlo Bandeira
Quando voltava aos finais de tarde, já quase noitinha, vindo do Agreste de Alagoas para a capital Maceió, sentido oeste/leste, mal sabia eu que começara, ali, uma jornada nova, novinha em folha, exageradamente nova, aliás. Mesmo sem perceber, ainda, que aquele encontro me comunicava algo prestes a acontecer.
Hoje eu sei que não era miragem o que presenciava pelo caminho; era um sinal, um aviso, o prenúncio de um grande momento na história de um povo de um canto do Estado de Alagoas, de um país chamado Brasil.
Não imaginava, tampouco, que veria e viveria a reinvenção de um jeito de fazer as coisas da política, na sua mais completa execução. Um município nordestino, em um estado do Brasil que comemorava oito anos, apenas, de mais uma redemocratização política, e que se tornou um município Referência no modo de pensar, implantar e implementar maneiras de atingir, em cheio, a desassistência pública que imperava em um País que nadava num mar de pobrezas, desigualdades sociais, e ainda, políticas autoritárias que beneficiavam uma burguesia inchada de favores e privilégios.
Pois bem, nesse trajeto vespertino e diário, duas coisas me chamavam muito a atenção: o outono nessa região, divisa entre o Agreste e a Zona da Mata alagoana, patrocinava um céu cintilado, dando-lhe brilho a uma aquarela de cores na imensidão dos céus. Imperava uma cor muito peculiar aos nordestinos. Não era o amarelado, nem o azulado, nem o verde, e nem o avermelhado, tampouco. Entretanto, eram tons comumente presentes àquela estação do ano. Dentre esses tons há uma tonalidade que suspiro quando falo, era aquele tom jerimum maduro que dominava uma claridade que contornava o degradê que anunciava, com uma fina camada de anoitecer, o brilho das estrelas.
No caminho, a oeste, olhando para o infinito do horizonte, findava o pôr do sol como uma tela a óleo. E olhando para a minha direita, sentido leste, na mesma linha daquele sol que findava o dia, estava oposta uma lua prateada e cheia. O dia e a noite no mesmo quadro, no mesmo instante. Era tão absurdamente belo o cenário que a minha atenção, entre a estrada e as curvas daquele anoitecer, entrou em harmonia.
Nunca havia vislumbrado e admirado, na mesma fração de segundos, o dia e a noite, o sol e a lua. Foram momentos encantados, predição de um grande encontro; aliás, era um brinde, aqueles momentos, foram pequenos assopros de alguma divindade que me tinha ou ainda me deve ter bem-querência.
Estava escrito em algum inventário celestial e divino, que estaria eu, prestes a ser ator e plateia, ao mesmo tempo, do marco que contemplou a história desse lugar, das pessoas desse canto agrestino de Alagoas, com uma revolução social e econômica, sobretudo, humanitária, pensada, planejada e executada por uma mulher, em pleno Nordeste do Brasil. Era final do século XX e início do XXI, entre 1984 a 2004. Foram vinte anos. Saímos de uma Arapiraca arcaica para a era digital. O caminho foi árduo, porém certeiro.
Agora, encontro-me, eu aqui, 41 anos passados, sentado à borda de uma história que referenciou atitudes, maneiras de lidar com o fenômeno das carências de uma população inebriada pelo cheiro de sua maior riqueza à época: a monocultura do fumo, e que não deixou de ser importante para o desenvolvimento deste recanto do mundo.
Nos dias de hoje, de 2025, passados quatro décadas, essa cidade respira autoestima, onde só havia crianças subindo aos céus como anjinhos, mesmo antes dos três meses de vida, cenário que engordava os altos índices daquela mortalidade infantil. Ruas descalçadas, era barro e buracos. Torneiras vazias, e que ainda não haviam na grande maioria das casas. Isso sem falar dos mantos de moscas que cobriam aquelas janelas e rondavam sorrisos e cada palavra dita com a boca entreaberta.

Hoje, são desafios de um município metrópole, modelo para onze outras cidades do Agreste e Sertão alagoano. Porém, uma mulher dessa mesma cidade, provou-me que esse assunto chato, evitado e despreciado, digo, a política, pode se tornar fator de evolução, de revolução, e que gerar o bem foi possível.
Nesse instante comprovei que um sonho determinou o caminho certo, para realizações em prol do todo. E foi na política, tão enjeitada por nós, que constatei, também, que a esperança existe. Contudo, aprendi que riqueza e fortuna são coisas completamente distantes uma da outra: a riqueza era para alguns poucos, mas a fortuna foi gerada para muitos, justamente por essa Mulher Arapiraquense da Gema.
A mulher é você, Doutora Célia, Célia Rocha! E o canto desse povo do Agreste de Alagoas, eu acho que não é preciso nem falar… O Sol e a Lua nunca se encontrarão, mas nos iluminarão sempre! Amém!
Parabéns, Célia Rocha – 29 de outubro; Parabéns, Arapiraca – 30 de outubro; Parabéns a esse povo resiliente e trabalhador de Arapiraca, que deixou de ser a “terra de Manoel André”, e hoje se dá como a terra de todas e todos nós.Pense!!!
