Selecionado para o Ventana Sur Animation!, filme de Rafhael Barbosa reflete sobre resistência negra e marca novo momento da animação brasileira
Lucia Barbosa
A animação “Utopia”, novo projeto do cineasta alagoano Rafhael Barbosa, foi selecionada para o Ventana Sur Animation!, seção dedicada à promoção do cinema e da televisão latino-americanos dentro do principal mercado audiovisual de Buenos Aires. A informação foi divulgada pela revista norte-americana Variety em 3 de novembro de 2025. O evento, considerado um dos mais importantes espaços de negociação e coprodução do continente, reúne projetos em busca de visibilidade e parcerias internacionais.
O longa, escrito por Barbosa em parceria com Werner Salles, se passa em 1695 e acompanha uma família de pessoas escravizadas que organiza uma rebelião para fugir em busca do Quilombo dos Palmares — descrito pelo diretor como “o refúgio mais antigo e organizado para africanos escravizados fora da África”. Inspirado em uma das maiores histórias de resistência negra do Brasil, o filme propõe uma releitura simbólica e poética do quilombo.
Em entrevista à Variety, Barbosa explicou que o projeto mescla técnicas de animação 2D recortada com quadros oníricos desenhados à mão, permitindo transitar entre o real e o espiritual. “A camada dos sonhos nos dá liberdade para experimentar estilos mais subjetivos e poéticos”, afirmou. As referências incluem o brasileiro Uma História de Amor e Fúria (Luiz Bolognesi), Apocalypto (Mel Gibson), Zarafa (Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie) e, principalmente, a animação angolana Nayola: Em Busca da Minha Ancestralidade, de José Miguel Ribeiro.
Além de sua estética híbrida, “Utopia” se destaca pela representatividade dentro de um setor historicamente excludente. “A animação é um dos segmentos mais elitistas de uma arte já elitista como o cinema, e há uma notável falta de profissionais negros”, afirmou Barbosa. “Um dos pontos fortes do filme é justamente reunir uma equipe de animadores negros em torno de um projeto sólido.”
Entre os nomes confirmados estão Rejane Faria, conhecida por Marte Um (Gabriel Martins) e A Melhor Mãe do Mundo (Anna Muylaert), e o apresentador franco-angolano Matamba Joaquim, além do animador Anderson Mahanski, criador da série Super Drags (Netflix), que atua como diretor de animação e produtor associado.
A presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), Adriana Pinto, que também integra a produção de “Utopia”, avaliou à Variety que o setor vive “um momento de reafirmação e busca por maturidade”. Segundo ela, o Brasil vem se consolidando como um dos principais polos ibero-americanos de produção, apesar das dificuldades estruturais. “O país está avançando com séries e longas autorais, participando de coproduções internacionais, ainda que o financiamento público e os salários sigam desiguais e concentrados nas regiões Sul e Sudeste”, disse.

“Utopia” é uma produção da La Ursa Cinematográfica, selo criado por Barbosa em Maceió, em coprodução com o Estúdio Núcleo Zero e a Grão Filmes. O projeto recebeu apoio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/Ancine) e da Lei Paulo Gustavo, via Governo de Alagoas, além do Prêmio Guilherme Rogato da Prefeitura de Maceió.
A La Ursa, que se define como uma produtora voltada a artistas negros emergentes, busca desconstruir estereótipos e consolidar Alagoas como um novo polo criativo no cinema brasileiro. “Esperamos estabelecer parcerias sólidas de coprodução e crescer em competitividade internacional”, afirmou Barbosa.
O reconhecimento de “Utopia” reforça o momento de renascimento do cinema alagoano, seis décadas após Cacá Diegues — um dos fundadores do Cinema Novo — projetar o estado no mapa da sétima arte. Em 2025, Alagoas teve presença histórica no Festival de Cannes, com três produções exibidas em diferentes mostras: A Vaqueira, a Corista e o Porco, de Stella Carneiro; Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur; e Infantry, de Laís Araújo.
A Variety observa que essa efervescência faz de Alagoas um novo território de criação negra e nordestina no cinema contemporâneo. “Utopia”, com seu olhar para o passado e suas ambições estéticas globais, é mais que um filme — é um símbolo dessa virada.
Fonte: Variety (“Brazilian Afrofuturist Animation ‘Utopia’ Adds Rejane Faria, Matamba Joaquim Ahead of Ventana Sur”, por Rafa Sales Ross, 3 de novembro de 2025).
