Fabiano Contarato assume presidência da CPI do Crime com promessa de foco técnico e combate a populismos

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Comissão deve investigar o “modus operandi” de organizações criminosas e buscar medidas estruturais contra o avanço das facções; governo conseguiu evitar derrota na disputa por cargos

Da Redação

A instalação da CPI do Crime nesta terça-feira (4) marcou o início de uma nova frente de investigação no Senado voltada ao combate às organizações criminosas e milícias que atuam em diferentes regiões do país. Com uma votação apertada, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) foi eleito presidente do colegiado por 6 votos a 5, derrotando o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República, que acabou sendo escolhido vice de forma simbólica, por aclamação.

A relatoria ficou com o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), autor do requerimento que criou a comissão. Ex-delegado, Vieira pretende dividir os trabalhos em eixos temáticos — como lavagem de dinheiro, corrupção, domínio territorial e rotas de tráfico —, numa tentativa de garantir que o debate não se perca em disputas políticas.

“A segurança pública não deve ser uma pauta apenas da direita, nem uma bandeira exclusiva de conservadores”, afirmou Contarato ao assumir o comando. “Enquanto eu estiver na presidência dessa CPI, o medo não faltará ao debate sobre o crime. A verdade será a protagonista.”

O discurso, aplaudido por senadores da base e até por parte da oposição, reforçou a tentativa de construir uma imagem de independência técnica e de equilíbrio político. Contarato, ex-delegado da Polícia Civil por 27 anos, tem histórico de atuação em temas ligados à justiça e direitos humanos.

Disputa política e simbolismo

A eleição também teve peso político. O governo Lula buscava evitar a repetição do revés de agosto, quando a oposição conquistou os principais postos da CPI mista do INSS. A articulação governista garantiu que o comando da nova comissão ficasse com o PT, o que ajudou a conter o avanço dos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo assim, a presença de Mourão como vice sinaliza um acordo de convivência entre campos opostos — uma composição que tende a testar os limites da cooperação em um tema sensível como a segurança pública.

Contexto e objetivos da CPI

Criada em junho, mas instalada apenas agora após a megaoperação policial no Rio de Janeiro que resultou em mais de 100 mortes, a CPI tem mandato inicial de 120 dias e orçamento estimado em R$ 30 mil. O colegiado conta com 11 senadores titulares e 7 suplentes, entre eles nomes de diferentes espectros políticos — de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Rogério Carvalho (PT-SE).

A comissão pretende investigar o funcionamento interno das facções criminosas e milícias, suas fontes de financiamento e o impacto sobre as instituições. Também estão previstas audiências com autoridades do governo federal, incluindo os ministros Ricardo Lewandowski (Justiça) e José Múcio (Defesa), além de dirigentes da PF, Abin e Senappen. O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, também será convidado.

Um debate além dos gabinetes

Em entrevista recente, o relator Alessandro Vieira afirmou que a CPI precisa “escapar das vaidades politiqueiras” e se apoiar em consensos técnicos. Ele defende que o colegiado ouça moradores de territórios dominados pelo crime, sob a justificativa de que “as políticas de segurança pública não podem ser desenhadas apenas dentro de gabinetes em Brasília”.

“As leis são importantes, mas não resolvem sozinhas. Temos um problema de gestão, de execução e de orçamento. A CPI pode ajudar a construir caminhos para isso”, disse Vieira.

Primeiros gestos e críticas

Durante a sessão de instalação, Contarato fez questão de diferenciar o trabalho da CPI do uso político da pauta da segurança. Ele condenou as 121 mortes na operação do Rio, afirmando que “por mais que as ações policiais sejam necessárias, jamais podemos comemorar a morte de qualquer pessoa”. O plenário fez um minuto de silêncio em homenagem aos quatro policiais mortos na ação.

Com um início marcado por discursos de moderação e apelos à técnica, a CPI do Crime começa sob o desafio de produzir resultados concretos sem se tornar palco de embates ideológicos — um risco recorrente em CPIs com forte potencial midiático.

O próximo passo será definir o plano de trabalho e o calendário de oitivas, em meio a uma conjuntura em que o tema da segurança pública volta ao centro da agenda política e eleitoral do país.

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