- Sessão do Conselho Universitário marcou os 61 anos do golpe de 1964 e reconheceu vítimas da repressão como parte da história da instituição.
- A cerimônia de diplomação será no próximo dia 9 de novembro, durante a Bienal do Livro, no Centro de Convenções Ruth Cardoso.
Da Redação
Em uma sessão marcada pela emoção e pelo resgate da memória, o Conselho Universitário (Consuni) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) aprovou, por unanimidade, a reintegração e diplomação póstuma dos estudantes Gastone Beltrão, Dalmo Lins e Manoel Lisboa, mortos pela repressão durante a Ditadura Militar (1964–1985). A decisão foi tomada no dia 1º de abril, data em que o golpe militar completou 61 anos, e representa um gesto simbólico de reparação e compromisso com a democracia.
A reunião contou com familiares das vítimas, ex-presos políticos, lideranças da resistência e integrantes da Comissão da Verdade Jayme Miranda, além do sociólogo Edval Cajá, último preso político libertado no país em 1979.
Um gesto de memória e autocrítica
O reitor Josealdo Tonholo abriu a sessão lembrando que a universidade também foi atravessada pelos silenciamentos e pela perseguição política do período militar. Ao reconhecer que a Ufal, em outros tempos, cedeu às pressões da repressão, Tonholo defendeu que o gesto de diplomar os estudantes mortos pela ditadura é uma forma de confrontar esse passado e reafirmar o compromisso com a democracia.
O requerimento que deu origem à decisão foi apresentado pelas professoras Emanuelle Rodrigues e Iracilda Moura, que basearam o pedido no relatório da Comissão da Verdade. Para elas, o reconhecimento da universidade é um ato de justiça e de reparação simbólica. Iracilda, sobrinha de Manoel Lisboa, trouxe um relato marcado pela dor da perda familiar e pelo esforço das gerações que lutaram para reconstruir a memória dos que foram silenciados.

Memória e resistência
A presença de Edval Cajá deu peso histórico ao encontro. Companheiro de militância de Manoel Lisboa no Partido Comunista Revolucionário (PCR), Cajá sobreviveu à prisão e à tortura. Sua fala lembrou que o país viveu uma política sistemática de perseguições e que muitos dos que tombaram nas mãos do regime eram jovens que sonhavam com um Brasil mais igualitário. Ele destacou que a violência da ditadura não foi um desvio, mas parte de uma estrutura de poder sustentada por interesses econômicos e alianças internacionais.
Durante a sessão, familiares também compartilharam lembranças das vítimas. Thomaz Beltrão recordou a irmã Gastone, estudante de Economia e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), morta em 1972 após ser torturada por agentes do DOPS. Ênio Lins, primo de Dalmo Lins, lembrou o sofrimento do estudante de Direito, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que foi expulso da Ufal e não resistiu às sequelas físicas e psicológicas das torturas sofridas.
Os depoimentos reconstruíram a dimensão humana das perdas e mostraram como a repressão atingiu uma geração inteira de jovens idealistas, muitos deles ligados ao movimento estudantil e às lutas por transformação social.
Reparação e responsabilidade
Os representantes da Comissão da Verdade Everaldo Patriota e Delson Lyra, enfatizaram que o país ainda convive com as consequências da anistia que impediu a responsabilização dos crimes cometidos durante o regime. Para eles, a decisão da Ufal é um passo relevante na busca por justiça histórica e na preservação da memória coletiva.
A partir dessa deliberação, foi criada a Comissão da Memória, Verdade, Justiça e Reparação da Ufal (CMVJR-Ufal), responsável por investigar violações de direitos cometidas contra estudantes e servidores da instituição. A comissão também vai propor medidas reparatórias e divulgará um site oficial para que a sociedade possa acompanhar o trabalho de investigação e resgate histórico.
A solenidade de colação de grau póstuma está marcada para 9 de novembro, durante a Bienal do Livro de Alagoas, no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Maceió — um gesto que une cultura, memória e justiça simbólica em um mesmo espaço público.
Os estudantes homenageados
José Dalmo Guimarães Lins — estudante de Direito e militante do PCB. Expulso da Ufal por “atividades subversivas”, foi torturado e morreu por suicídio em 1971, no Rio de Janeiro.
Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão — estudante de Economia, militante da Juventude Estudantil Católica e da ALN. Torturada e executada por agentes do DOPS-SP em 1972.
Manoel Lisboa de Moura — estudante de Medicina, líder estudantil e fundador do PCR. Preso e torturado até a morte em 1973.
