Balestreri: “Segurança pública no Brasil ainda protege a casa-grande e ataca a senzala”

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Da Redação

A operação policial que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro reacendeu o debate sobre o modelo de segurança pública adotado no país. Para o ex-secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Brisolla Balestreri, o Brasil insiste em um paradigma ineficiente, racista e populista, que mira o “térreo” — as favelas — e poupa o “andar de cima”, onde circulam o dinheiro e o poder do crime organizado.

Em entrevista à BBC News Brasil, Balestreri afirmou que o país ainda atua sob a lógica da “casa-grande e senzala”: “A segurança pública no Brasil tem sido para proteger a casa-grande e para atacar e conter a senzala”.

Professor e coordenador do Núcleo de Urbanismo Social e Segurança Pública do Insper, o especialista avalia que as incursões policiais em comunidades pobres funcionam como cortina de fumaça, alimentando o espetáculo da repressão sem alterar as estruturas que sustentam o crime. “Fuzil não brota em favela. Bandido de favela não constrói fuzil. Você tem um nível ‘top’ de criminalidade que não convive com favelado, que não mora em favela, que não senta com bandido de favela para tomar um vinho, para tomar um café” disse à BBC.


Milhares de operações, poucos resultados

Balestreri citou dados da Universidade Federal Fluminense (UFF), segundo os quais o Rio de Janeiro registrou 18 mil operações policiais entre 2007 e 2022, quase 600 delas terminando em chacinas, e com índice de eficiência inferior a 2%. “É a política do espetáculo e da farsa. Quarenta anos de mais do mesmo, e nada muda na realidade das favelas”, afirmou.

Para ele, operações como a que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, na terça-feira (28), são “midiáticas e irresponsáveis”. Mobilizam milhares de policiais sem planejamento técnico e colocam em risco a vida de agentes e moradores. “Em qualquer lugar racional, uma operação em que morrem policiais é considerada um fracasso, não um sucesso”, disse o ex-secretário.


A herança escravocrata e o populismo penal

Na visão de Balestreri, a violência estatal é expressão direta do racismo estrutural e da desigualdade histórica brasileira. O país aboliu a escravidão, mas manteve o escravismo como ideologia, o que se reflete na forma como o Estado trata os pobres — como ameaça, não como cidadãos.

Nas favelas faltam urbanismo social, escola, renda, presença constante da polícia de proximidade. O que existe é pânico e tragédia, declarou à BBC News Brasil.

O especialista também criticou o uso político da violência. Segundo ele, governos populistas se alimentam do medo para justificar medidas de força. Um populismo penal que transforma o sangue em capital político. O governador faz discurso de vitória enquanto o crime se fortalece, mais rico e mais armado.

O que realmente funciona

Para Balestreri, o país precisa de uma mudança estrutural e racional na segurança pública. Ele elenca quatro pilares centrais:

  1. Estancar o fluxo de armas longas — como fuzis e metralhadoras, que sustentam o poder territorial das facções.
  2. Substituir operações por policiamento permanente — com presença constante e relação de confiança com as comunidades.
  3. Investir em urbanismo social — com oportunidades de educação, trabalho e lazer .
  4. Atacar o crime financeiro — rastrear o dinheiro ilícito, fortalecer a inteligência e articular ações entre Polícia Federal, Receita Federal, COAF e Ministério Público.

“Se você não der aos jovens, por exemplo, de 14 a 25 anos oportunidades de qualificação profissional, de trabalho e renda, de formação de valores, de liderança, o crime vai lá e oferece essas oportunidades. O crime tem plano informal de carreira.”, resume o professor.

Carbono Oculto: o exemplo do que dá certo

Como contraponto, Balestreri citou à BBC a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que investigou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro nos setores de combustíveis e financeiro. A ação, conduzida de forma integrada entre diferentes órgãos públicos, movimentou cerca de R$ 50 bilhões em recursos ilícitos e não deu um único tiro.

“Carbono Oculto começou por cima, na cobertura, onde as coisas realmente importantes acontecem. Ela trouxe uma lufada de esperança para o país, de que a gente pode enfrentar o crime organizado de uma maneira consequente. E fez isso de uma maneira impecável”, afirmou.

Em contraste, classificou a megaoperação no Rio como “um fiasco internacional”, que “enxovalha a imagem do Brasil e do Rio de Janeiro no mundo”.

Repercussão política e reações institucionais

A chacina nos complexos da Penha e do Alemão provocou reação imediata de órgãos públicos e entidades de direitos humanos. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) anunciou que vai acompanhar as investigações, e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania pediu informações ao governo fluminense sobre as circunstâncias das mortes.

O governador Cláudio Castro (PL) defendeu a operação, alegando que “a polícia está no caminho certo” e que o enfrentamento “salva vidas”. Já o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Edson Fachin, cobrou o cumprimento das restrições impostas às ações policiais em comunidades — medidas fixadas em 2020, durante a pandemia, para conter abusos.

Organizações civis e especialistas consideram que a operação reforça o padrão histórico de letalidade policial e ausência de inteligência investigativa, apontando que, mais uma vez, o foco ficou no “andar de baixo”, enquanto os grandes articuladores econômicos do crime continuam intocados.

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