Graciliano Ramos, 133 Anos: A Ética do Eu através do Mundo e do Outro

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Guilherme Moraes

133 anos, no município de Quebrangulo, nascia Graciliano Ramos de Oliveira, amplamente considerado um dos maiores escritores brasileiros – e, em minha opinião, o maior.

Conta-se que Graciliano Ramos, ou o “Velho Graça”, apelido que conquistou por ser o decano de uma turma de jovens intelectuais maceioenses nos anos 1930, era um homem sisudo, severo e direto. Comportamento esse que serviu de base para os caracteres de sua estética romanesca seca e que, como apontou certa vez Lêdo Ivo, se recusava a usar adjetivos. Sua prosa enxuta já foi estudada por diversos críticos literários, de Antonio Candido e João Luis Lafetá até os acadêmicos atuais. Muito se falou sobre seu estilo: construções frasais, escolhas narrativas, entre outros. Comentários elogiosos em sua esmagadora maioria.

Gostaria de apontar, brevemente, o que mais me fascina na escrita de Graciliano, algo que nomeei como a “Ética do Eu através do Mundo e do Outro”. Creio que a ética de Graciliano, enquanto homem, figurava em suas obras literárias enquanto estética, com o mesmo rigor e completude que se manifestava no dia a dia do romancista alagoano.

Para compreender a originalidade de Graciliano, é preciso lembrar o contexto no qual ele surge enquanto escritor. Após a geração de 1922, a primeira do chamado Modernismo brasileiro, liderada por Mário e Oswald de Andrade, e durante o governo de Getúlio Vargas pós-“Revolução de 30”, surgia no Brasil uma série de escritores e escritoras profundamente preocupados com a situação do “homem brasileiro”, inserido em um país no qual um sistema secular de produção mostrava cada vez mais sinais de falência – o mundo rural, herdado das capitanias hereditárias. Ao mesmo tempo, as promessas das benesses da modernidade (liberdade, democracia, melhoria na qualidade de vida…) não se cumpriam, acontecendo somente uma explosão do processo de urbanização das grandes cidades que, como consequência direta, criava um cenário urbano no qual era impossível ignorar aquele amontoamento de corpos retirantes do campo em comunidades que passamos a chamar de favelas.

Assim, esses escritores não se afiliaram às preocupações da Geração de 22, que, no olhar desses homens e mulheres, era ingênua e inocentemente utópica. Caminhando em sentido oposto, a chamada Geração de 30 demonstrou uma obsessiva preocupação em retratar o homem como ele vivia, suas dores, misérias e penúrias.

Todavia, a Geração de 30 não era homogênea; dividia-se em dois grandes grupos: os que produziam um romance mais intimista e psicológico, chamados de “Católicos” e, do outro lado, os “Comunistas”, que compreendiam o romance como espaço de denúncia da realidade, escrevendo os chamados “romances sociais”. É importante entender que, apesar de as visões ideológicas desses autores serem diferentes, ambos concordavam que a experiência do homem moderno brasileiro era trágica; o que os separava eram as projeções de futuro e as formas de alcançá-las. E, como ideologia e estética andam de mãos dadas, os romances produzidos eram consideravelmente distantes de um grupo para o outro enquanto obra literária. Os intimistas se preocupavam mais com a psique das personagens; os sociais, com a relação que as personagens mantinham entre si e o meio.

O que Graciliano Ramos fez, ao longo de quatro romances – CaetésSão BernardoAngústia e Vidas Secas – foi demonstrar, a partir de obras com grande qualidade literária, a indissociabilidade do Eu-Outro-Mundo. Ou seja, como o Mundo, entendido como as relações de produção, a forma como a sociedade se organiza e, portanto, como o poder se movimenta, e o Outro – as relações que os homens mantêm entre si, permeadas por afetos positivos (amor, amizade) e negativos (medo, raiva, inveja) – geram tensões no Eu, em seu nível consciente, memórias e lembranças, inconsciente (traumas) e material (a forma como o Eu se posiciona no meio em que atua). Acredito que essa compreensão Ética do Eu é importantíssima para entender as escolhas estéticas de Graciliano: tipo de narrador; estilo de prosa; relação entre fluxo de consciência e monólogo interior; voz, registro e agência das personagens; a figuração de classes sociais a partir de personagens-arquétipos; o uso de símbolos para representar classes sociais e a estética expressionista para deformá-los…

Assim, é possível encontrarmos nos romances de Graciliano frases como, por exemplo, a reflexão de Paulo Honório, protagonista de São Bernardo, após a perda trágica de sua esposa Madalena: “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”. Ou a conclusão de Luís da Silva, de Angústia, para explicar (e justificar) suas escolhas, inclusive o assassinato de Julião Tavares: “Tenho vivido em numerosos chiqueiros. Provavelmente esses imóveis influíram no meu caráter”. A “vida agreste” afetou tanto a Paulo Honório, quanto os “numerosos chiqueiros” a Luís da Silva. Outrossim, o que é comum a ambas as personagens é que elas só se deram conta dessa relação quando foram atravessadas pelo Outro: por Madalena, no caso de Honório, e por Marina, no caso da personagem de Angústia.

Desse modo, a relação Eu-Outro-Mundo é vista a partir de diversos ângulos: do mundo que dá as bases e limita a experiência do Eu; do Outro que atravessa o Eu e o desloca; e da reação do Eu, em nível consciente e social, a todos esses atravessamentos e deslocamentos. Com isso, Graciliano Ramos apresenta uma profunda visão do eu, ou seja, do “homem brasileiro”, superando a dicotomia entre Católicos e Comunistas. E, por isso, o romancista alagoano foi considerado, por seus próprios pares, como o maior escritor de sua geração. Angústia foi escolhida como o melhor romance da década e o segundo melhor da literatura brasileira, perdendo apenas para Dom Casmurro, do incontornável Machado de Assis.

Antes que eu me esqueça, mencionei anteriormente que os romances de Graciliano eram uma figuração de sua ética, da sua maneira própria de se posicionar no mundo. Isso é fácil de demonstrar: Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios e, como prefeito, incomodou muitos poderosos ao lutar por justiça social e ser crítico do governo de Getúlio Vargas. Ricardo Ramos, seu filho e autor de uma biografia, Graciliano: Retrato Fragmentado (Editora Record), conta que: “Sua administração na prefeitura, independente e rigorosa, pisara os pés de muita gente: a desapropriação de terras para construção de estradas (desavenças, gritarias, ameaças), a severa cobrança de impostos (de repente os privilégios), aplicação das verbas públicas segundo suas prioridades (os interesses individuais ou de grupos contrariados)”. Como diretor de Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente ao de secretário de Educação, instituiu a merenda escolar e criou concurso para professores. Nos anos 1940, anos após ser preso pela Ditadura de Vargas sem motivo oficial, Graciliano ingressou nas fileiras do PCB, Partido Comunista Brasileiro, em um ato de reafirmação com o “homem brasileiro” tão demonstrado ao longo de sua obra literária.

Quanto à sua imagem de homem severo, bem, provavelmente era verdade. Mas Graciliano vivia em sua vida pessoal aquilo que relatava em seus romances, ou seja, que o Outro e o Mundo mudam o Eu. Ricardo Ramos, na biografia já citada, relembra Graciliano como “desatento” e “brincalhão”. Graciliano Ramos sabia que nem só de dores vive o homem; é preciso lutar, agarrar e conquistar momentos de ternura. Ternura que também existe em seus romances, basta lê-los com um olhar humano.

Neste 27 de outubro de 2025, celebramos os 133 anos de Graciliano Ramos, o mais ético e humano dos romancistas brasileiros. E, por isso mesmo, o maior entre todos.

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