Estabelecendo uma diferenciação entre desejar e querer, o filósofo alemão, Ernst Bloch, no volume I da obra O Princípio Esperança, disse que enquanto naquele verbo não há ação, sendo assim passivo, todo querer é um querer-fazer. Em outras palavras, aquele que quer algo, ao contrário do que “apenas” deseja, age para conquistar o objeto de seu interesse.
Na mesma obra, em um diálogo com a psicanálise, sobretudo com Freud, Bloch rejeita a tese freudiana do sonho diurno como um devaneio e que serve apenas como atalhos para uma melhor compreensão dos sonhos noturnos. Para o filósofo alemão, os sonhos diurnos antecipam, planejam, são abertos, possuem imaginação e projetam a expansão do próprio sonhador e do mundo. Ademais, no ato de imaginar, há um ato de intencionar, que pode se tornar um ato de querer, logo um ato de querer-fazer.
Das figuras rupestres aos romances modernos, o ser humano materializa sua imaginação por meio da linguagem. Todavia, se materializar uma imaginação é também materializar uma intenção, toda linguagem é imaginação-anúncio. Indo adiante, se ela se torna um querer-fazer como proposto por Bloch, a linguagem é, nesse cenário, imaginação-anúncio-ação.
Para outro filósofo, o austríaco Ludwig Wittgenstein, pensar uma nova linguagem é pensar uma nova forma de vida, e, além disso, os limites da linguagem impõem os limites do mundo.
Das constatações de ambos os filósofos, conclui-se que aqueles que possuem uma imaginação mais fértil e a materializam por meio de uma linguagem mais expansiva, expandem, como consequência, a possibilidade de conquistar aquilo que querem.
Para Bloch, é o sonho diurno que contém o elemento utópico. A esperança, como um afeto expectante, é sonhada, planejada e projetada nesse sonho e, a partir do momento em que supera o mundo das ideias e se movimenta no mundo real (realizando tal ato por meio da linguagem) o afeto esperança torna-se impulso para ação.
Isso é importante? Diria que possui uma importância decisiva na situação política atual.
Durante décadas, os reacionários brasileiros, travestidos de conservadores, sonharam acordados com a sua própria “Revolução Conservadora”, sendo Olavo de Carvalho o seu principal representante. E, ao contrário dos conservadores stricto sensu que por definição rejeitam qualquer linguajar/ação radical, os reacionários se apropriaram da linguagem que historicamente é associada à esquerda como mobilizações de ruas, ações diretas e o famoso binário de agitação política denúncia/exigência. Essa linguagem-ação materializa a intenção dos reacionários brasileiros em realizar seu sonho, e assim agem para construir a sua própria utopia. Os eventos que ocorreram no Congresso Nacional, as manifestações nacionais, a exigência pela anistia dos golpistas do 8 de janeiro são provas cabais de que os bolsonaristas (os reacionários brasileiros) são hoje a força disruptiva da política brasileira.
A esquerda, ao contrário, renunciou suas formas históricas de luta e organização, ou seja, limitou sua linguagem a uma participação tímida no Parlamento e tem se tornado cada vez mais um coadjuvante das lutas de classe no Brasil. Wittgenstein parece ter razão, ao limitar sua linguagem, a esquerda limita o próprio mundo expectado. Mas, seguindo a máxima de que não há vazio na política, enquanto a esquerda contrai sua linguagem, os bolsonaristas expandem a deles, e, portanto, não há como ter um diagnóstico diferente daquele que indica que os bolsonaristas aumentarão suas representações nas eleições do ano que vem enquanto há uma tendência de que a esquerda diminua.
Por último, Bloch, Freud, e tantos outros pensadores colocaram a esperança e o medo como afetos opostos. Se transpusermos essa compreensão para o mundo político, mesmo com todas as derrotas que sofreram nas últimas semanas, parece que os bolsonaristas ainda sonham acordados e esperançosos. Em contrapartida, a esquerda oscila entre o medo, os pesadelos noturnos e o desejo incipiente.
Por Guilherme Moraes
