por Guilherme Moraes
Morei cerca de três anos em São Carlos, uma cidade no interior de São Paulo. Era muito tranquila, na verdade as “piores” coisas que aconteciam — pelo menos do ponto de vista dos demais residentes que não se sensibilizavam com o clima universitário que pairava sobre aquele munícipio no qual, dos 200 mil habitantes, uns 25 mil eram de jovens entre 18 e 24 anos morando sozinhos ou em repúblicas, resumindo, liberto dos adultos — eram provocadas pelos meus colegas universitários, tanto da UFSCar, onde eu estudava, quanto do CAASO, como é chamada carinhosamente a USP de lá.
No meu caso, não achava ruim a dinâmica imposta pela juventude, e até — supostamente, ênfase no supostamente — poderia ser considerado cúmplice de alguns dos atos provocados pelos jovens, coisa que jamais admitirei, a legislação brasileira me permite o direito de não produzir provas contra mim mesmo.
De toda maneira, São Carlos era uma cidade pacata e não lembro de nada grave ter acontecido durante o tempo em que passei por lá, tampouco algo sério aconteceu comigo. No entanto, certo dia eu passei por duas situações que a formação maceioense não foi suficiente para me fazer saber como reagir, e, por conta disso, passei o maior sufoco.
Por muitos meses eu não tive internet em casa. Assim, para poder realizar as pesquisas dos trabalhos de faculdade, conversar com meus amigos e familiares, ou simplesmente ficar olhando o Facebook alheio, eu levava o meu notebook para o campus. Não foram poucas as vezes em que eu saí de madrugada da universidade.
Geralmente, eu me acomodava na parte norte do campus, onde ficava a sala de informática aberta 24h para os estudantes. Mas para ir para casa, era preciso sair pela parte sul, o que significa que eu tinha que descer a escadaria do Restaurante Universitário e depois caminhar pela principal até a saída.
Nesse dia em questão era madrugada, com certeza depois de 2h da manhã, e eu, como de costume ia andando para casa, até porque o sistema de ônibus de São Carlos era caro e ruim, além do que eles não rodavam a essa hora.
Quando se desce a escadaria do R.U, chega-se ao lago da UFSCar, que nos meses de inverno (como aquele dia), é coberto por uma neblina que esconde a água e você não consegue ver nada em volta. Eu, com frio, carregando uma mochila pesada nas costas e cantarolando uma música qualquer, caminhava despreocupado até que:TCHBUMMMMM! Um barulho gigantesco de algo caindo no lago. Tão alto que minha alma saiu do corpo e ficou alguns segundos zanzando no espaço.
Quando ela retornou, eu recuperei o fôlego e olhei para o local que viera o som. Deparei-me com uma capivara nadando de maneira relaxada pelas águas do lago, tão relaxada que me deu a impressão que ela executava perfeitamente o nado costas. Tentei até ficar com raiva, mas era uma cena tão encantadora e inusitada que apenas me fez suspirar e seguir minha andança.
Pouco tempo depois do meu encontro com a capivara, cheguei no portão sul, acenei para o porteiro que, cochilando, me ignorou. A caminhada da portaria até a minha casa durava por volta de 30 minutos. Eu tinha que andar pela avenida principal até passar pelo cemitério, depois, descer umas escadas, que ligavam a avenida ao bairro das repúblicas universitárias, aventurando-me por lá até chegar ao conforto do meu lar. Como era muito tarde, as ruas estavam desertas, mas isso não me amedrontava, já estava acostumado.
Porém, quando eu estava chegando perto da escada, um homem sentado no muro que separa a parte mais alta da parte que se tem acesso através dos degraus gritou:— E o jogo amanhã?!? — Ele vestia uma jaqueta esportiva da Adidas, bermuda e chinelo. Carregava um capacete, mas não tinha nenhuma moto por perto.
Nessa época, além de não ter internet em casa, eu não possuía televisão — ah, os smartphones ainda não haviam sido inventados. Ou seja, eu não fazia a mínima ideia de quem iria jogar e, para piorar a situação, naqueles meses estavam ocorrendo muitos conflitos entre torcidas organizadas.
Eu olhei para ele. Ele olhou para mim exigindo uma resposta, algo que demonstrasse que nós compartilhávamos do mesmo elo futebolístico capaz de tornar, ainda que por um breve momento, dois desconhecidos em melhores amigos.
Percebi que ele não ia ceder, não ia desistir da ideia de saber a minha opinião sobre o jogo de amanhã, então eu olhei fixamente para os olhos dele e gritei em tom de vibração:
— É o Timão, porra!
— É o Timão!
Nos abraçamos e eu segui tranquilo para casa após o dia em que eu passei o maior sufoco em São Carlos.Já em Fortaleza, cidade grande, eu passei o sufoco comum, fui assaltado à mão armada duas vezes. Nada demais…
