por Lúcia Barbosa
As relações entre homens e mulheres expõem, no século XXI, uma disputa intensa de valores sobre poder, igualdade e autoridade. Esse conflito se manifesta em diferentes espaços da vida pública — nas universidades, nos tribunais, nas ruas e, principalmente, nas redes sociais, onde discursos e visões de mundo se confrontam diariamente.
Nesse cenário, diferentes formas de masculinidade convivem e revelam uma sociedade atravessada por tensões. Enquanto alguns homens passam a questionar modelos tradicionais de poder, outros reagem às mudanças sociais com resistência e ressentimento.
No centro desse processo estão os homens em formação. São meninos e jovens que cresceram em um ambiente profundamente marcado pelas plataformas digitais, onde ideias circulam com velocidade e sem mediação. Nas mesmas redes em que encontram debates sobre igualdade de gênero, respeito e novas formas de relacionamento, também são expostos a conteúdos que disseminam misoginia, hostilidade contra mulheres e discursos que tentam restaurar hierarquias tradicionais entre homens e mulheres.
É nesse território de narrativas conflitantes que muitos jovens constroem sua identidade masculina. De um lado, encontram referências que estimulam empatia e relações mais equilibradas; de outro, são bombardeados por conteúdos que alimentam frustração, ressentimento e a ideia de que homens estariam “perdendo espaço” na sociedade.
Ao mesmo tempo, cresce o número de homens em processo de desconstrução — aqueles que passaram a questionar os padrões tradicionais de masculinidade e os privilégios historicamente associados ao patriarcado. Esse processo envolve revisar atitudes, linguagem e formas de relacionamento, reconhecendo que muitas práticas consideradas naturais foram construídas dentro de estruturas de desigualdade.
Essa mudança exige enfrentar hábitos profundamente enraizados. Desconstruir não significa apenas mudar discursos, mas revisar comportamentos e relações que durante séculos foram organizados a partir de uma lógica de poder masculino.
Mas há também quem reaja a essas transformações, alguns deles em estado de putrefação, os mais ativos nas redes sociais. Nesses ambientes digitais, formam comunidades e disseminam a retomada de modelos hierárquicos de relacionamento. Nesses espaços, a ampliação dos direitos das mulheres é frequentemente apresentada como ameaça à autoridade masculina.
Esse tipo de discurso não permanece restrito ao campo das opiniões. Quando se amplia e se normaliza, ele ajuda a sustentar uma cultura que legitima o controle, o desprezo e, em situações extremas, a violência contra mulheres.
Uma pesquisa internacional ajuda a dimensionar os efeitos desse discurso. Um levantamento global realizado pela Ipsos, com cerca de 23 mil entrevistados, revelou que homens da Geração Z são os que mais concordam com a ideia de que a esposa deve obedecer ao marido, superando inclusive gerações mais antigas.
Segundo o estudo, 31% dos homens da Geração Z concordam com a afirmação de que “uma esposa deve sempre obedecer ao marido”. Entre as mulheres da mesma geração, 18% também concordam com essa visão.
Entre os millennials, os índices são de 29% entre homens e 19% entre mulheres. Na Geração X, os percentuais caem para 21% entre homens e 13% entre mulheres. Já entre os baby boomers, 13% dos homens e 6% das mulheres compartilham dessa opinião.
Outro dado reforça essa lógica hierárquica dentro da vida familiar. 33% dos entrevistados da Geração Z afirmaram acreditar que o marido deve ter a palavra final nas decisões importantes da casa.
Os resultados fazem parte de um levantamento internacional sobre valores sociais contemporâneos e desafiam uma expectativa comum: a de que as gerações mais jovens caminhariam automaticamente para relações mais igualitárias.
Os números indicam um cenário mais complexo. Entre jovens ainda em formação, homens que tentam rever privilégios históricos e grupos que reagem às mudanças sociais, desenha-se uma disputa cultural profunda sobre o futuro das relações de gênero e é o discurso de ódio que está vencendo.
Esse contexto, ajuda a explicar, ao menos em parte, por que a violência contra mulheres está em níveis alarmantes em diferentes sociedades.
