Assédio nas ruas e sobrecarga em casa: a realidade das mulheres nas cidades

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por Redação do Interior

Um levantamento nacional indica que as mulheres continuam enfrentando obstáculos estruturais tanto dentro de casa quanto no espaço urbano. A pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres 2026”, conduzida pelo Instituto Cidades Sustentáveis e executada pelo Ipsos-Ipec, revela que os indicadores relacionados à desigualdade de gênero e à violência permaneceram praticamente estáveis entre 2024 e 2025, sugerindo uma persistência dos problemas.

O estudo integra o Programa Cidades Sustentáveis e foi realizado em parceria com o Sesc-SP e a Fundação Grupo Volkswagen. Ao todo, foram ouvidas 3.500 pessoas com 16 anos ou mais, residentes há pelo menos dois anos em dez capitais brasileiras: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.

As entrevistas ocorreram entre 1º e 27 de dezembro de 2025, em um painel online de internautas. O nível de confiança da pesquisa é de 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra.

Desigualdade começa dentro de casa

Os resultados mostram que a divisão das tarefas domésticas ainda é percebida de forma desigual entre homens e mulheres.

No total da amostra, 39% dos entrevistados afirmam que as atividades domésticas deveriam ser responsabilidade de ambos, mas que na prática recaem majoritariamente sobre as mulheres. Já 37% dizem que as tarefas são divididas de forma equilibrada.

Quando os dados são analisados por gênero, surge uma discrepância significativa de percepções. Entre as mulheres, 44% afirmam assumir a maior parte das tarefas domésticas, enquanto apenas 32% dos homens reconhecem essa desigualdade. Por outro lado, 47% dos homens dizem que o trabalho é dividido igualmente, visão compartilhada por apenas 28% das mulheres.

Regionalmente, a percepção de igualdade na divisão das tarefas aparece com maior frequência em Manaus e Belém, onde 45% dos entrevistados dizem acreditar que as responsabilidades domésticas são compartilhadas.

Assédio segue como realidade cotidiana

Além das desigualdades no ambiente doméstico, a pesquisa revela que a violência e o assédio continuam fazendo parte da rotina de grande parte das mulheres.Segundo o levantamento, 71% das internautas afirmam já ter sido vítimas de algum tipo de assédio em pelo menos um dos ambientes investigados. Em 2024, esse índice era de 74%, indicando uma leve redução, mas ainda dentro de um patamar considerado elevado.

Os espaços públicos continuam liderando as ocorrências: 54% das mulheres relatam assédio em ruas, praças, parques ou praias (56% em 2024); 50% afirmam ter sido assediadas no transporte público (51% no ano anterior); 36% relatam episódios no ambiente de trabalho (38% em 2024); 32% citam situações em bares ou casas noturnas (38% anteriormente); 26% mencionam assédio dentro do ambiente familiar (28% em 2024); 19% dizem ter sido assediadas em transporte particular, como carros de aplicativo ou táxis (17% no ano anterior).

Os dados indicam que, embora alguns índices tenham recuado discretamente, o problema permanece disseminado em diferentes contextos da vida urbana.

Capitais apresentam diferenças marcantes

O levantamento também identificou variações importantes entre as cidades analisadas.

Porto Alegre aparece com o maior índice de relatos de assédio: 82% das mulheres afirmam já ter passado por alguma dessas situações. Em seguida está Belém, com 79%, registrando aumento de nove pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

No sentido oposto, Rio de Janeiro apresentou a queda mais significativa entre as capitais pesquisadas, passando de 77% para 69%.

Outro aspecto observado pelos pesquisadores foi uma relação inesperada entre desigualdade doméstica e assédio. Capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, onde a percepção de sobrecarga feminina dentro de casa é mais elevada, não aparecem entre as cidades com maiores índices de assédio. Já Porto Alegre, que lidera os relatos de violência desse tipo, é também a cidade com menor percepção de sobrecarga feminina no lar, com 34%.

Punição é vista como principal medida de combate

Ao serem questionados sobre quais ações deveriam ter prioridade no enfrentamento da violência doméstica e familiar, os entrevistados apontaram principalmente medidas punitivas.

As respostas mais citadas foram:

  • Aumentar as penas para agressores – 55% (54% em 2024);
  • Ampliar os serviços de proteção às vítimas – 48% (49% em 2024);
  • Agilizar a investigação das denúncias – 37% (54% no levantamento anterior).

Entre os homens, o apoio ao endurecimento das penas cresceu de 48% para 53%, aproximando-se do índice registrado entre as mulheres, de 57%.

Apesar disso, as mulheres demonstram preocupação maior com a qualidade do atendimento às vítimas. Para 28% delas, a prioridade deveria ser capacitar profissionais para acolher melhor mulheres em situação de violência, enquanto apenas 17% dos homens apontam essa medida.

Em algumas capitais, determinadas propostas ganharam mais força. Manaus e Fortaleza registraram aumento significativo no apoio ao endurecimento das penas, com crescimento de 12 e 5 pontos percentuais, respectivamente. Já a ampliação dos serviços de proteção foi mais citada em Belém, com aumento de seis pontos percentuais, além de Goiânia e São Paulo, onde o apoio cresceu cinco pontos.

“Duplo fardo” feminino nas cidades

Para Patricia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política do Ipsos-Ipec, os dados revelam que as mulheres continuam enfrentando duas pressões simultâneas.

De um lado, há a sobrecarga de trabalho doméstico invisível; de outro, a restrição da liberdade causada pelo medo do assédio nos espaços públicos.

Segundo ela, a estabilidade dos indicadores entre um ano e outro mostra que as mudanças estruturais necessárias para reduzir desigualdades e violência avançam em ritmo lento.

Na avaliação da especialista, construir cidades mais seguras e igualitárias exige não apenas punição aos agressores, mas também investimento em acolhimento às vítimas e maior envolvimento dos homens na responsabilidade de enfrentar a violência de gêner.

A pesquisa foi realizada em dezembro de 2025 por meio de entrevistas online com 3.500 participantes. A amostra foi construída com base em dados do Censo 2022 e da PNADC 2022, além de informações do próprio instituto de pesquisa, considerando critérios como sexo, idade, classe social e ocupação.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para o total da amostra, podendo variar entre quatro e seis pontos percentuais nos recortes por cidade.

O estudo faz parte de iniciativas apoiadas por parceiros institucionais como a Frente Nacional de Prefeitos e a Estratégia ODS, além de receber cofinanciamento da União Europeia no âmbito de programas voltados à implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

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