por Redação do Interior
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a série Cine na Sala, do Jornal do Interior, destaca um filme que provoca reflexão sobre violência de gênero e autonomia feminina: Entre Mulheres.
A produção, dirigida por Sarah Polley e baseada no livro Women Talking, da escritora canadense Miriam Toews, ganhou forte reconhecimento da crítica internacional. O longa registra cerca de 90% de aprovação no site Rotten Tomatoes e foi elogiado principalmente pelo roteiro, pela direção e pelas interpretações do elenco, que reúne nomes como Claire Foy, Rooney Mara e Jessie Buckley.
Apesar da recepção positiva, o filme não é uma obra de entretenimento convencional. Trata-se de um drama denso, construído quase inteiramente a partir de diálogos e debates entre as personagens.
Debate sobre sobrevivência e justiça
A trama acompanha mulheres de uma comunidade religiosa isolada que descobrem ter sido vítimas, durante anos, de abusos cometidos por homens da própria colônia. As agressões ocorriam à noite, quando as vítimas eram drogadas e não tinham consciência do que acontecia.
Por muito tempo, os episódios foram explicados pelos líderes da comunidade como manifestações sobrenaturais ou até como fruto da imaginação das mulheres. A versão começa a ruir quando alguns suspeitos são presos e a verdade sobre os crimes vem à tona.
Com parte dos homens da comunidade ausente — após deixar o local para tentar pagar a fiança dos acusados —, as mulheres aproveitam o momento para discutir coletivamente o que fazer dali em diante.
O grupo passa então a avaliar três possibilidades: permanecer na colônia e ignorar os acontecimentos, ficar e enfrentar os agressores quando retornarem ou abandonar o lugar em busca de uma nova vida.
Conversas que revelam traumas
Ao longo do debate, diversas histórias e dilemas pessoais emergem. Entre eles, o caso de uma mulher que descobre estar grávida após um estupro e o medo de que os meninos da comunidade cresçam reproduzindo o mesmo ciclo de violência.
Uma das personagens decide permanecer no local, temendo que seu filho pequeno possa sofrer represálias caso ela tente fugir.
Depois de intensas discussões sobre fé, perdão, justiça e proteção das futuras gerações, a maioria das mulheres chega a uma conclusão: partir.
Um final marcado pela ruptura
No desfecho do filme, elas organizam uma saída coletiva antes do retorno dos homens. Com carroças e crianças, deixam a colônia rumo a um destino incerto.
Enquanto isso, o professor da comunidade — um dos poucos homens que demonstram apoio às vítimas — registra por escrito todas as conversas e decisões tomadas pelo grupo. É desse registro que surge o título original da obra.
O final tem um tom agridoce. As mulheres não confrontam diretamente os agressores, mas optam por romper com a estrutura social que permitiu os abusos.
Caso real inspirou a história
A narrativa tem inspiração em acontecimentos reais registrados na Manitoba Colony, uma comunidade menonita localizada no departamento de Santa Cruz, na Bolívia.
Entre 2005 e 2009, dezenas de mulheres e meninas relataram ataques ocorridos durante a madrugada. Investigações apontaram que alguns homens da colônia utilizavam anestésicos veterinários para sedar as vítimas antes de cometer os abusos.
Durante anos, muitas mulheres foram levadas a acreditar que os episódios eram resultado de castigos divinos ou ações demoníacas, já que acordavam desorientadas e sem memória clara do ocorrido.
O caso chegou à Justiça e, em 2011, oito homens foram condenados a cerca de 25 anos de prisão.
Embora o filme apresente uma assembleia fictícia em que as mulheres discutem seu destino, a obra foi inspirada principalmente nos relatos das vítimas após a revelação dos crimes.
Reflexão sobre um problema atual
Com atuações marcantes e um roteiro que privilegia o confronto de ideias, Entre Mulheres transforma uma conversa coletiva em um poderoso retrato sobre violência, silêncio e resistência.
A escolha do filme para a série Cine na Sala reforça a atualidade do tema, especialmente em um contexto em que a violência de gênero segue sendo uma das principais violações de direitos humanos no mundo.
Mais do que um drama sobre um episódio específico, a obra propõe um debate amplo sobre autonomia feminina, dignidade e a necessidade de romper estruturas que perpetuam a violência.
