Alteridade Literária: um encontro entre histórias em trânsito

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por Guilherme Moraes

Hoje, pela manhã, estava eu na aula de Linguística Aplicada, na Universidade. Era sobre signo ideológico em Volóchinov e linguística dos corpos e eu — talvez por ser da Literatura — pouco entendia do assunto. O horário da disciplina é de 8h às 12h, mas tive que sair mais cedo, por volta das 10h30, pois tinha um compromisso às 13h do outro lado da cidade.

Temendo me atrasar, decidi ir de uber, então, dirigi-me até a avenida principal e solicitei um carro pelo aplicativo. Bastou alguns minutos para um motorista aceitar. Assim que o tempo de espera saltou na tela de meu celular, percebi que ele estava me mandando mensagens no privado. “Bom dia, estou indo” além de um texto gigante que não li e, por isso, respondi apenas “ok”.

Mal entrei no carro, ele me perguntou:— Bom dia! Tudo bom com você?

— Bom dia, tudo bem, e com o senhor?

— Melhor agora. Mas me diga, melhor que a encomenda?

—Melhor que a encomenda eu não s…

— Não, meu rapaz! Tem sempre que dizer que está melhor que a encomenda! Para atrair a positividade!

— É, o senhor está certo, está melhor que a encomenda.

— E o que você faz na Universidade?

— Faço mestrado em Letras.

— Mas que maravilha! Meu grande arrependimento nesta vida foi não ter feito graduação em Letras. Cursei administração, trabalhei 20 anos no mundo corporativo. Ganhei dinheiro, mas não era feliz. Meu mundo é as Letras, inclusive estou escrevendo um livro.

—Ah, é? Na verdade, eu faço mestrado em Literatura. E seu livro, é sobre o quê?

— O Livro se chama “Passageiros ao Espelho”. É um livro de Contos, relatos dos passageiros que pego durante as corridas.

— Muito interessante! Eu escrevi um romance com o conceito parecido, acho… se chama “Histórias em Trânsito” e é sobre um homem que vai nos terminais de ônibus durante a madrugada conversar com as pessoas que lá estão. Quantos contos o senhor pretende colocar no livro?

— 70! Não me pergunte o motivo! Talvez seja porque essa década foi muito importante para mim.

A partir daí, ele começou a compartilhar as histórias, traumas, fetiches dos passageiros deles, cruzando com a sua própria trajetória.

Ao finalizar a história sobre uma mulher que tinha sofrido um abuso na infância, ele disse:

— Eu também sofri, tinha 6 anos, demorei anos para superar, fiz terapia e até compus uma canção sobre isso, posso te mostrar?

—Claro, adoraria ouvir, eu também componho.

O nome da música era “infância”, a melodia e arranjo me fez lembrar da MPB dos anos 90, sobretudo Adriana Calcanhoto, uma ótima música. Mostrou-me outras três “Olhos Verdes”, sobre seu pai que faleceu devido a um câncer de pele e que me lembrou muito ‘Avohai’; “Ao amigo” homenagem ao parceiro de composição dele e “Caminho” uma música violão e gaita em uma estética bem dylanesca.

Quando estávamos perto do meu lugar de desembarque, ele me indagou:

— Você lembra o que eu te perguntei assim que você entrou no carro?

— Se eu estava bem.

— E a segunda pergunta?

Antes que ele pudesse — em tom orgulhoso — dizer algo como “tá vendo, você não lembrou”, falei:

— Se tava melhor que a encomenda.

— Olha só, são raros os que lembram!

— Claro que eu lembraria. Nós somos da Literatura, a Literatura se faz na percepção do Outro!

— É nós somos da Literatura. Da Literatura.

Seu Valdeci, grande homem.

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