Empresários enfrentam Milei e denunciam colapso industrial na Argentina

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por Redação do Interior

A relação entre o governo do presidente Javier Milei e o setor produtivo argentino entrou em um momento de forte tensão. Grandes empresários passaram a reagir publicamente às políticas econômicas do governo e denunciar o que classificam como uma crise profunda na indústria nacional, agravada pela abertura comercial acelerada e pela queda no consumo interno.

Segundo informações do jornal espanhol El País, cerca de 21.900 empresas fecharam as portas na Argentina nos dois primeiros anos da gestão Milei. O cenário é atribuído à combinação de liberalização das importações, forte ajuste fiscal e restrições monetárias, medidas que vêm pressionando sobretudo os setores industriais e o comércio.

Até recentemente, parte expressiva do empresariado mantinha apoio ao plano econômico do governo. Nas últimas semanas, porém, os setores mais atingidos decidiram romper o silêncio e lançar um alerta público.

A Unión Industrial Argentina (UIA), principal organização do setor industrial no país, divulgou um comunicado contundente intitulado “Sem indústria, não há nação”. No texto, a entidade afirma que diversos segmentos da indústria atravessam uma situação crítica, especialmente pequenas e médias empresas.

A entidade afirma que a mudança radical do modelo econômico exige um processo de adaptação profundo e desigual, que muitas empresas simplesmente não estão conseguindo suportar.

Segundo a UIA, muitas companhias enfrentam simultaneamente:

  • queda abrupta da atividade
  • forte carga tributária
  • dificuldade de acesso ao crédito
  • demissões e fechamento de unidades

Mesmo reconhecendo alguns avanços na estabilização econômica, a entidade rebateu diretamente as críticas do governo e afirmou que os empresários não são responsáveis pelas distorções estruturais acumuladas na economia argentina ao longo de décadas.

A organização também ressaltou o peso da indústria na economia do país: o setor responde por cerca de 19% do Produto Interno Bruto e emprega aproximadamente 1,2 milhão de trabalhadores formais.

As manifestações do empresariado surgiram após um novo ataque público do presidente durante a abertura do ano legislativo no Congresso argentino, em 1º de março.

No discurso, Milei voltou a acusar parte dos industriais de viver de privilégios e subsídios. O presidente classificou empresários como “caçadores de zoológico”, expressão usada para insinuar que prosperaram em um sistema protegido e dependente do Estado. A declaração provocou forte reação dentro do setor produtivo.

As importações argentinas cresceram 24,7% em 2025, principalmente vindas do Brasil e da China.Ao mesmo tempo, a indústria nacional entrou em retração.

A Asociación Empresaria Argentina (AEA), que reúne algumas das maiores companhias do país, também se pronunciou. Embora em tom mais moderado, a entidade deixou claro que o confronto com o empresariado não contribui para a recuperação econômica.

O grupo defendeu a continuidade da estabilização macroeconômica e a redução da carga tributária, mas advertiu que é essencial restabelecer um diálogo institucional sério e respeitoso entre governo e empresas.

A declaração também foi interpretada como resposta direta aos ataques de Milei a empresários influentes, entre eles Paolo Rocca e Javier Madanes Quintanilla.

Governo dobra a aposta

Apesar das críticas, o governo não recuou. Em evento da Fundación Mediterráneo, o ministro da Economia Luis Caputo voltou a defender o modelo de abertura econômica e atacou o antigo sistema industrial do país.

Segundo ele, o modelo baseado em proteção estatal teria criado um ambiente ineficiente e dependente de privilégios, obrigando consumidores a pagar mais caro por produtos de qualidade inferior.

As políticas de liberalização comercial tiveram impacto imediato no comércio exterior. Dados citados pelo El País mostram que as importações argentinas cresceram 24,7% em 2025, principalmente vindas do Brasil e da China.

Ao mesmo tempo, a indústria nacional entrou em retração. O setor registrou seis meses consecutivos de queda na atividade até dezembro, quando a utilização da capacidade instalada ficou em 53,8%, um nível considerado baixo para padrões industriais.

Embora a economia argentina tenha crescido 4,4% no último ano, analistas apontam que o resultado foi puxado por setores como mineração, agronegócio e serviços financeiros.

Esses segmentos, no entanto, não concentram a maior parte dos empregos formais. Já áreas como indústria, comércio e construção civil — que empregam milhões de trabalhadores — continuam enfrentando fechamento de empresas, redução da produção e cortes de pessoal.

As informações são do jornal El País.

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