Wilson Santos faz história e se torna o primeiro alagoano a receber título de Notório Saber em Cultura Popular

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por Redação do Interior

A história de Wilson Santos é, acima de tudo, uma história de amor à própria origem. Nascido e formado nos saberes do Quilombo de Santa Luzia, ele aprendeu cedo que o tambor não é apenas instrumento: é memória, identidade e linguagem. Cada batida carrega histórias que atravessam gerações, ensinamentos transmitidos pela oralidade e pela convivência, longe das salas formais de aula, mas profundamente enraizados na experiência coletiva.

Ao se tornar o primeiro alagoano a receber o título de Notório Saber em Cultura Popular por uma instituição federal — a Universidade Federal de Alfenas — Wilson não conquistou apenas um reconhecimento acadêmico equivalente ao doutorado. Ele viu sua própria trajetória, construída ao longo de mais de 20 anos de dedicação aos ritmos afro-brasileiros e nordestinos, ser legitimada como ciência. A universidade, ao oficializar o título, reconheceu que há conhecimento sofisticado, estruturado e transformador também fora dos livros e laboratórios.

Estudante do 7º período de licenciatura em Música na Universidade Federal de Alagoas, Wilson ocupa um lugar raro e simbólico: é aluno e mestre ao mesmo tempo. Sua caminhada inclui a fundação da Orquestra de Tambores de Alagoas, o trabalho formativo com jovens e a atuação constante em projetos de extensão que aproximam a universidade do território. Seu dossiê de vida e obra foi entendido como uma verdadeira “tese viva”, porque sua produção não se limita ao discurso — ela pulsa, transforma e cria pertencimento.

Há algo profundamente emocionante nesse reconhecimento. Ele representa não apenas a vitória individual de um percussionista, mas um gesto de reparação histórica. Durante séculos, saberes afro-indígenas e populares foram deslegitimados ou reduzidos a folclore. Ao conceder o título de Notório Saber, a instituição afirma que esses conhecimentos possuem densidade intelectual, método, impacto social e relevância acadêmica.

Wilson costuma dizer que “o nosso tambor é ciência”. A frase sintetiza uma convicção construída na prática: o conhecimento também nasce da ancestralidade, da vivência comunitária e da resistência cultural. Sua conquista projeta Alagoas no debate nacional sobre reconhecimento institucional dos mestres populares e abre caminhos para que outros guardiões de saberes tradicionais tenham suas trajetórias oficialmente valorizadas.

No fim, o título não transforma quem ele é — apenas torna visível o que sempre existiu. O tambor continua sendo tambor. Mas agora carrega, além do som, o selo de um país que começa a compreender que amar a própria cultura também é produzir conhecimento.

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