por Redação do Interior
Uma linha de pesquisa iniciada há quase três décadas em um laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro acaba de alcançar o ponto mais sensível da ciência translacional: o início de testes clínicos formais em humanos.
Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou a fase 1 de estudos da polilaminina, uma substância desenvolvida no Brasil com potencial para estimular a regeneração de neurônios após lesões na medula espinhal. O objetivo inicial é claro e rigoroso: avaliar segurança.
À frente do projeto está a bióloga e professora doutora Tatiana Sampaio, que há quase 30 anos investiga formas de reconstrução neural. A história da polilaminina começa com uma observação inesperada.
“Foi um acaso”, relembra. “Eu estava no laboratório quando percebi que algo extraordinário tinha acontecido. A proteína ficou enorme. Para ter crescido daquele jeito, só podia estar se associando a outras. Naquele momento eu não sabia para que serviria, mas sabia que havia algo especial ali.”

A base da pesquisa é a laminina, proteína naturalmente presente no corpo humano e distribuída em tecidos como pele e músculos. Durante o desenvolvimento embrionário, ela exerce papel decisivo na formação do sistema nervoso.
“Os axônios — que são como fios que levam o impulso do cérebro aos músculos — crescem no embrião sobre uma espécie de pista. Essa pista é a laminina”, explica a professora doutora Tatiana.
Na vida adulta, porém, a história é diferente. Após uma lesão medular, os axônios rompidos não se regeneram espontaneamente. A hipótese da pesquisadora era oferecer novamente essa “pista biológica” para orientar o crescimento neuronal. O problema é que a laminina isolada não funcionava.
“Ela é pequena demais. O corpo elimina rapidamente. Isso já tinha sido testado antes.”
A solução veio da estrutura ampliada observada no laboratório. Ao invés da proteína isolada, Tatiana conseguiu formar uma malha composta pela associação de várias lamininas: a polilaminina.
“Quando você extrai a proteína da natureza, ela vem fragmentada. Aquilo não representa exatamente o que está no corpo. É preciso restituir a forma original. A polilaminina é isso: reconstruir em laboratório a arquitetura natural da proteína”, afirma a pesquisadora.

A produção envolve extração de laminina a partir de placentas doadas voluntariamente por gestantes, em parceria com a farmacêutica Cristália. Após rigorosa triagem e purificação, o material é preparado para uso cirúrgico.
No centro cirúrgico, dois frascos são enviados: um com a laminina purificada e outro com o diluente. A mistura permite que as moléculas se organizem e formem uma rede estrutural no local da aplicação.
A injeção é intramedular — a agulha é inserida diretamente no interior da medula espinhal, no tecido nervoso. Trata-se de aplicação única, realizada durante a cirurgia de descompressão, procedimento indicado na maioria dos casos de lesão aguda.
“A medula fica dentro do canal vertebral, que é rígido. Quando ocorre a lesão, há inchaço. A medula passa a ser comprimida contra o osso. Por isso quase sempre é necessária uma laminectomia para descompressão”, explica Tatiana.
“Programamos a aplicação para esse momento. E quanto mais rápido a cirurgia acontece, melhor.”
Segundo ela, agir cedo pode ser decisivo. Nas primeiras semanas após o trauma, ainda não há formação consolidada da cicatriz que dificulta a regeneração.
“No começo, você só precisa apontar o caminho e o sistema nervoso tende a seguir. Com o tempo, forma-se uma cicatriz irreversível que atrapalha.”
Além de estimular o crescimento de axônios, estudos em animais mostraram efeito de neuroproteção — proteção contra a morte celular que ocorre após a lesão.
“Quanto mais cedo você aplica, maior a proteção.”

Antes da fase regulatória atual, um estudo preliminar — divulgado como pré-print, sem revisão por pares — acompanhou oito pacientes com lesão medular completa. Dois morreram em decorrência da gravidade do trauma. Entre os seis sobreviventes, todos apresentaram algum grau de recuperação motora.
A taxa observada foi de 75% de recuperação de movimentos, número superior aos cerca de 15% descritos em dados históricos para pacientes submetidos apenas a cirurgia e reabilitação.Tatiana reconhece que o desenho do estudo ainda não permite afirmar eficácia.
“A diferença foi grande o suficiente para chamar atenção. Mas ainda precisamos de estudos controlados.”
Um dos pacientes apresentou recuperação considerada extraordinária, voltando a andar após reabilitação intensiva. Segundo a pesquisadora, o ambiente hospitalar de excelência e o estímulo constante podem ter contribuído.
“A regeneração não acontece sozinha. O axônio precisa crescer e saber para onde ir. A fisioterapia é absolutamente essencial. Esses axônios precisam ser instruídos.”
Uso por decisões judiciais e cautela médica
Mesmo antes da fase 1 oficial, alguns pacientes conseguiram acesso ao tratamento por decisões judiciais. Um caso recente foi o da nutricionista Flávia Bueno, internada no Hospital Israelita Albert Einstein após acidente no mar. Após a aplicação, familiares relataram movimentação no braço direito.
A professora Tatiana considera o uso fora de protocolo, do ponto de vista científico, inadequado — mas reconhece a dimensão humana envolvida.
“Felizmente, eu não posso tomar essa decisão. Um juiz pode.”
Especialistas que não participam da pesquisa defendem prudência. A médica fisiatra Ana Rita Donati, da AACD, lembra que algum grau de melhora pode ocorrer mesmo sem novas terapias.
“Quando falamos em recuperação neurológica, é preciso atenção. Já se espera alguma evolução natural em certos casos”, afirma.
A fase 1, autorizada pela Anvisa , envolverá cinco pacientes com lesão medular completa, tratados até 48 horas após o trauma e acompanhados por seis meses. O foco é segurança e monitoramento de efeitos adversos.

Se a segurança for confirmada, novas fases poderão testar eficácia em maior escala e avaliar ajustes de protocolo.
A pesquisadora mantém postura cautelosa, mas determinada.
“Não posso dizer que será algo espetacular. Mas é possível que seja. Estamos muito próximos.”
A trajetória da polilaminina também expôs as fragilidades do sistema científico brasileiro. Cortes orçamentários entre 2015 e 2016 levaram à perda da patente internacional. A nacional foi mantida temporariamente com recursos da própria pesquisadora.
Ao ser perguntada como se definia, Doutora Tatiana Sampaio respondeu:
“Destemida. Se alguém me disser que não dá para fazer, eu não escuto. É um desprezo pelo conceito do impossível.”
