Prisão de brasileiro desmantelou rede global de abusadores na dark web e levou ao resgate de criança na Rússia

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por Redação do Interior

Uma operação silenciosa da Polícia Federal (PF), deflagrada em 2019, provocou um abalo sem precedentes em redes globais de abuso sexual infantil na chamada dark web. O caso, que permaneceu sob sigilo por anos, veio a público em reportagem de BBC News Brasil, assinada pelo jornalista João Fellet, e integra o documentário Infiltrados na dark web, produzido em parceria com a BBC Eye.

A investigação levou à prisão de um brasileiro conhecido no submundo digital como “Lubasa”, apontado como administrador de cinco dos maiores fóruns de compartilhamento de material de abuso sexual infantil na dark web. Segundo a PF, as plataformas somavam quase 2 milhões de usuários espalhados pelo mundo.

Operação estratégica e sigilosaApesar da dimensão da prisão, o caso foi mantido em segredo. O motivo era estratégico: com os servidores apreendidos na casa do suspeito, a polícia passou a ter acesso a uma vasta base de dados que poderia identificar outros integrantes da rede criminosa. A divulgação prematura poderia alertar suspeitos e comprometer novas capturas.

De acordo com a delegada Rafaella Parca, da Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF, o brasileiro era considerado peça-chave.

“Ele era responsável pela estrutura que permitia o funcionamento dos fóruns. Era tratado como ‘chefão’ dentro da rede”, relatou no documentário.

Ao ser preso, o investigado demonstrou surpresa e incredulidade. Na residência, em meio a condições precárias, foram encontrados os servidores que mantinham os fóruns ativos — considerada, segundo os investigadores, a maior apreensão de arquivos da dark web já realizada.

Hoje, ele cumpre pena que soma 266 anos de prisão no Brasil.

Os arquivos apreendidos foram compartilhados com forças de segurança de diversos países e com a Interpol, que reúne 196 nações para cooperação policial. A partir desse material, centenas de usuários foram identificados e presos ao redor do mundo.

A reportagem destaca que a captura do brasileiro desencadeou uma série de operações internacionais. Entre elas, o resgate de um menino de 7 anos na Rússia, sequestrado em 2020 e dado como possivelmente morto após semanas de buscas sem sucesso.

Imagens da criança foram localizadas em um dos fóruns monitorados por agentes infiltrados. A partir de cruzamentos de informações extraídas dos servidores apreendidos, investigadores conseguiram identificar o sequestrador e localizar a vítima com vida.

Infiltração e combate contínuo

O documentário da BBC acompanhou durante sete anos policiais do Brasil, Estados Unidos, Rússia e Portugal que atuam infiltrados em fóruns da dark web. O trabalho exige monitoramento constante, atuação em diferentes fusos horários e cooperação internacional quase imediata.

Criada nos anos 1990 pelo Departamento de Defesa dos EUA para comunicações sigilosas, a dark web passou a ser utilizada, a partir dos anos 2000, por redes criminosas, incluindo fóruns de exploração sexual infantil.

Segundo os investigadores ouvidos pela BBC, o combate a esse tipo de crime é marcado por um ciclo contínuo: cada prisão gera novos desdobramentos e novas frentes de apuração.

“Quando você resgata uma criança ou prende um abusador, é libertador. Mas sabemos que o trabalho recomeça no dia seguinte”, afirmou a delegada.

A prisão do brasileiro demonstrou como estruturas digitais podem sustentar crimes transnacionais e, ao mesmo tempo, como a cooperação entre polícias pode romper o anonimato prometido pela rede oculta.

O caso, agora revelado ao público pela BBC, expõe não apenas a dimensão global do problema, mas também a importância de estratégias silenciosas e de longo prazo para desarticular organizações criminosas que operam além das fronteiras físicas.

A íntegra da investigação está disponível no documentário Infiltrados na dark web, produzido pela BBC News Brasil em parceria com a BBC Eye.

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