por Redação do Interior
Um dos principais símbolos da arte popular alagoana amanheceu marcado pelo fogo nesta semana. A escultura “Boi Bumbá”, criada pelo mestre artesão João das Alagoas, foi vandalizada na orla da Avenida da Paz, em Maceió. Registros que circulam nas redes sociais mostram parte da estrutura chamuscada após a ação criminosa.
Com aproximadamente seis metros de altura, a obra integra o Circuito Alagoas Feita à Mão, iniciativa que transformou pontos estratégicos da capital em vitrines permanentes da cultura popular. Além do Boi Bumbá, o projeto reúne peças como “O Beijo da Mestra Irinéia”, instalado na Lagoa da Anta, e a réplica do “Leão”, do mestre André da Marinheira, posicionada na Avenida Assis Chateaubriand.
As esculturas do circuito foram confeccionadas em isopor naval e fibra de vidro — materiais selecionados para suportar maresia, sol intenso e variações climáticas típicas do litoral. Mais do que intervenções artísticas urbanas, elas cumprem a função de projetar o trabalho dos mestres artesãos alagoanos e aproximar moradores e turistas das tradições locais.
Natural de Capela, João Carlos da Silva Freitas, conhecido como João das Alagoas, nasceu em 3 de outubro de 1958. Desde 2011, detém o título de Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas. Sua trajetória é marcada pela produção de esculturas em cerâmica, lapinhas e brinquedos tradicionais. O boi-bumbá, expressão emblemática das manifestações culturais nordestinas, consolidou-se como sua assinatura artística e o tornou referência nacional.
Sob o aspecto legal, o caso pode ser caracterizado como dano ao patrimônio, conforme estabelece o Código Penal Brasileiro. Por se tratar de obra vinculada a um Mestre do Patrimônio Vivo e inserida em política pública de valorização cultural, a ocorrência também pode ser enquadrada como crime contra o patrimônio cultural, o que amplia a gravidade da infração e pode resultar em penalidades mais severas aos responsáveis.
Até agora, não há confirmação oficial sobre suspeitos ou detenções. A expectativa é de que as autoridades investiguem o episódio e que providências sejam adotadas tanto para restaurar a peça quanto para reforçar a segurança das demais obras do circuito.
O vandalismo do qual foi alvo a escultura impõe um debate mais amplo: a importância de proteger a cultura popular como patrimônio coletivo. Essas manifestações reúnem saberes, práticas, festas, linguagens e modos de fazer transmitidos de geração em geração, constituindo parte essencial da identidade de um povo.
Preservar tradições como o boi-bumbá, as lapinhas, o coco de roda e o artesanato tradicional significa manter viva a memória social e fortalecer o sentimento de pertencimento das comunidades. Programas de reconhecimento, como o registro de Mestres do Patrimônio Vivo adotado em Alagoas, cumprem papel estratégico ao valorizar trajetórias muitas vezes construídas fora dos grandes centros urbanos.
Além do valor simbólico, a cultura popular também impulsiona a economia. Festas, feiras e circuitos culturais movimentam o turismo e estimulam a economia criativa, gerando renda e oportunidades em diferentes regiões do estado.
Mais do que conservar objetos ou celebrações, proteger a cultura popular é assegurar diversidade, resistência e continuidade histórica. O ataque ao “Boi Bumbá” ultrapassa o dano material: atinge um símbolo que representa memória, identidade e a própria voz da tradição alagoana.
