Argentina enfrenta greve histórica e tensão nas ruas com reforma trabalhista de Milei

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por Redação do Interior

A Câmara dos Deputados da Argentina iniciou nesta quinta-feira (19) a discussão do projeto de reforma trabalhista enviado pelo governo de Javier Milei, depois de sua aprovação no Senado na semana passada. A maior central sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), convocou uma greve geral de 24 horas, que começou à 0h desta quinta, segundo a agência Associated Press.

O governo espera que a proposta seja votada no plenário da Câmara em 25 de fevereiro e aprovada até 1º de março, data em que Milei abrirá as sessões ordinárias do Legislativo. A reforma é considerada uma das maiores mudanças na legislação trabalhista argentina em décadas, revisando regras que remontam aos anos 1970.

Paralisação e impacto nos serviços

A greve geral suspendeu serviços públicos essenciais em Buenos Aires e em outras regiões do país:

  • Transporte público, trens, ônibus e aviões paralisados;
  • Coleta de lixo, transporte de cargas e entrega de correspondências interrompidos;
  • Hospitais públicos funcionando com equipe mínima;
  • Bancos e órgãos governamentais fechados.

A CGT classifica a reforma como um retrocesso histórico. Entre os pontos mais criticados estão a ampliação da jornada para até 12 horas, redução de indenizações por demissões, restrição do direito de greve com imposição de serviços mínimos, alterações em horas extras e férias, além da criação de um fundo de compensação em detrimento da Previdência Social.

“Não é modernização, é precarização”, declarou a central sindical.

Protestos e confrontos

Embora a CGT não tenha convocado manifestações de rua, uma onda de protestos está acontecendo. Na última quarta-feira, milhares de pessoas protestaram nas proximidades do Congresso durante o debate do Senado, com confrontos que deixaram dezenas de feridos e cerca de 30 detidos. A polícia utilizou gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água, e o governo chegou a abrir processos por “terrorismo” contra manifestantes que atacaram forças de segurança.

Tensão na Puente Pueyrredón

Hoje, quinta feira (19), um dos focos de tensão foi o Puente Pueyrredón, principal ligação entre o sul da região metropolitana e a capital. Manifestantes bloquearam o acesso e houve intervenção policial com uso de gás e retirada de barricadas, interrompendo temporariamente o trânsito.

O Ministério da Segurança alertou a jornalistas e cinegrafistas para permanecerem em áreas designadas, alegando risco nos protestos. A Associação de Correspondentes Estrangeiros criticou a medida, afirmando que ela limita o trabalho da imprensa e compromete a função do Estado de proteger jornalistas.

Oposição à reforma e contexto social

Críticos da reforma alertam que a lei precariza relações de trabalho e desmonta direitos duramente conquistados, enquanto o governo argumenta que a legislação é ultrapassada e contribui para o aumento do emprego informal, que atingiu 43% atualmente.

O projeto original chegou a incluir um artigo que reduziria em até 50% o salário de trabalhadores afastados por doença ou acidente, mas o governo foi obrigado a retirá-lo após resistência de aliados parlamentares.

A situação econômica também agrava o clima de tensão. O fechamento da fábrica de pneus Fate, que demitiu mais de 900 funcionários, reacendeu críticas às políticas de Milei, especialmente diante da liberalização de importações que prejudicou indústrias locais. Nos últimos dois anos, quase 21 mil empresas fecharam, resultando em cerca de 300 mil empregos formais perdidos.

A sessão na Câmara será intensa e poderá se estender por dias. Se aprovada com emendas, a proposta retornará ao Senado para validação final. A expectativa é que a reforma seja sancionada até o início de março, quando aulas e atividades laborais se intensificam após as férias de verão.

A greve de hoje marca a quarta paralisação geral contra o governo Milei.

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