Suspeita de gravação de reunião secreta aprofunda crise no STF após saída de Toffoli do caso Master

Compartilhe

por Redação do Interior

A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou um novo e explosivo capítulo. Um dia depois da reunião reservada que redefiniu a condução do processo do Banco Master, ministros da Corte passaram a suspeitar que o encontro tenha sido gravado clandestinamente.

A reunião ocorreu na quinta-feira (12) e resultou na decisão de Dias Toffoli de deixar a relatoria da investigação. Já na sexta-feira (13), o site Poder360 publicou uma reportagem com trechos extensos e literais das falas dos ministros, o que acendeu o alerta dentro do tribunal.

O que deveria permanecer restrito ao ambiente institucional transformou-se em foco de tensão. A precisão das transcrições — com falas longas reproduzidas de forma quase integral — levou ministros a considerar improvável que o conteúdo tenha sido obtido apenas por relato de memória.

Até o momento, não há confirmação oficial de que a reunião tenha sido gravada, nem qualquer investigação formal anunciada. Também não há prova sobre quem poderia ter feito eventual registro. Ainda assim, o ambiente na Corte é descrito como de “perplexidade” e “desconfiança”. Toffoli negou ser o autor de qualquer gravação.

O pano de fundo: o relatório da Polícia Federal

A reunião da quinta-feira foi convocada para discutir os efeitos de um relatório de cerca de 200 páginas elaborado pela Polícia Federal, sob comando do diretor-geral Andrei Rodrigues. O documento embasava pedido de suspeição de Toffoli na relatoria do caso Master.

O banco, liquidado em novembro de 2025, deixou um rombo estimado em R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos — considerado o maior da história do setor.

No encontro principal, dez ministros participaram (uma cadeira está vaga desde a saída de Roberto Barroso). O placar indicava oito votos favoráveis à permanência de Toffoli como relator e dois contrários — Cármen Lúcia e Edson Fachin. A falta de unanimidade, no entanto, preocupava parte da Corte.

Ministro Dias Toffoli ex-relator do caso Master

Antes da sessão ampliada, houve uma reunião restrita, por volta das 13h30, com Fachin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Toffoli.

Segundo relatos divulgados, Toffoli afirmou que, caso fosse declarada sua suspensão, recorreria por todos os meios possíveis. Moraes e Gilmar anteciparam votos pela rejeição da suspeição, defendendo que a PF não poderia investigar autoridade com foro sem autorização do Supremo.

Na sessão mais ampla, já perto das 15h, Toffoli afirmou “não ter nada a temer” sobre seus negócios familiares, mencionando sua participação indireta em empreendimento no Paraná que, em 2021, teve ligação societária com pessoa ligada ao banqueiro investigado. A sociedade foi desfeita em fevereiro de 2025.

O ministro também sugeriu discutir um código de ética com divulgação ampla de declarações de imposto de renda — proposta que não prosperou.

Críticas à PF e divisão sobre o rito

Ao longo da sessão, ministros como Moraes, Gilmar e Nunes criticaram duramente a atuação da PF, classificando o relatório como juridicamente frágil. Já Cármen Lúcia e Fachin defenderam que o tema fosse levado ao plenário na sexta-feira (13), antes do carnaval, para evitar desgaste prolongado da Corte.

O ministro André Mendonça reconheceu haver crise institucional, mas votou pela permanência de Toffoli, descartando a tese de “relação íntima” com o empresário investigado. Também afirmou que eventos patrocinados pelo banco não poderiam, por si, gerar suspeição.

Ministro André Mendonça, agora relator do caso Master

Cristiano Zanin destacou que o reconhecimento da suspeição poderia levar à nulidade das provas já produzidas. O ministro Flávio Dino foi além e classificou o relatório como “lixo jurídico”, sustentando que a crise era política. Sugeriu que o Supremo divulgasse nota conjunta rejeitando a suspeição e, em seguida, Toffoli encaminhasse voluntariamente o processo para redistribuição.

A solução negociada

Com maioria consolidada, mas sem unanimidade, prevaleceu a proposta de nota institucional. Os dez ministros assinaram comunicado afirmando inexistir suspeição ou impedimento e reconhecendo a validade dos atos já praticados.

Em seguida, Toffoli formalizou o pedido para que o processo fosse redistribuído. O caso passou ao ministro André Mendonça. Fachin, que defendia votação no plenário na sexta-feira, acabou aceitando a solução negociada.

Vazamento e nova crise

A publicação das falas na sexta-feira (13) reacendeu o conflito. O caráter seletivo do vazamento — que destacou apoios a Toffoli e minimizou divergências — gerou irritação. Para alguns ministros, a divulgação teria servido à autopreservação; para outros, poderia ter objetivo oposto, de expor divisões internas.

Até agora, não há confirmação de gravação nem de autoria. Mas o episódio abriu uma nova frente de crise: além do embate com a Polícia Federal, o Supremo agora enfrenta uma ruptura de confiança dentro de sua própria cúpula.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *