por Redação do Interior
Um grupo de congressistas democratas dos Estados Unidos voltou a colocar em pauta, nesta semana, a exigência formal para que o governo norte-americano abandone definitivamente a Doutrina Monroe, marco histórico da política externa do país que, há dois séculos, consolidou a América Latina como área de influência de Washington. A iniciativa é liderada pela deputada Nydia Velázquez, de Nova York, e conta com o apoio de parlamentares do campo progressista, entre eles Alexandria Ocasio-Cortez.
A resolução, reapresentada na Câmara dos Representantes, havia sido protocolada inicialmente em dezembro de 2023. O novo movimento ocorre em meio à avaliação de que, longe de ser superada, a lógica da Doutrina Monroe foi reativada com intensidade inédita nas últimas décadas durante o retorno de Donald Trump à Casa Branca, agora com Marco Rubio à frente do Departamento de Estado.
O texto propõe a substituição desse paradigma histórico por uma nova diretriz batizada de “Política da Boa Vizinhança”, voltada à construção de relações mais equilibradas e cooperativas entre os Estados Unidos e os países do Hemisfério Ocidental. Na avaliação dos autores, a doutrina criada no século XIX, embora apresentada originalmente como uma reação à ingerência europeia, acabou servindo de base para sucessivas intervenções militares, operações encobertas e apoio a golpes de Estado em países latino-americanos.
Entre os episódios históricos citados estão as chamadas “guerras das bananas”, o golpe contra Jacobo Arbenz na Guatemala, o embargo imposto a Cuba, a derrubada de governos democraticamente eleitos no Chile e no Brasil, o suporte à Operação Condor durante as ditaduras do Cone Sul, a atuação de esquadrões da morte em El Salvador, o financiamento dos Contras na Nicarágua, a invasão de Granada, a interferência no Haiti nos anos 1990 e a imposição de programas de austeridade associados ao Fundo Monetário Internacional.
A resolução também atualiza essa linha do tempo com ações atribuídas diretamente à administração Trump. Entre elas estão pressões sobre processos eleitorais em Honduras, incluindo ameaças de retaliação econômica; o perdão concedido ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por narcotráfico; declarações sobre a possibilidade de controle do Canal do Panamá; e medidas de pressão sobre o Brasil, envolvendo tarifas comerciais e intimidações direcionadas a ministros do Supremo Tribunal Federal, em um contexto de apoio político a Jair Bolsonaro.
Outros pontos mencionados incluem a deportação de centenas de pessoas para o sistema prisional de El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, operações letais contra supostos traficantes em águas do Caribe, além de uma ação militar classificada como não autorizada contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e em sua transferência para uma prisão em Nova York, onde responde a acusações de narcoterrorismo.
O documento também critica o chamado “corolário Trump”, conceito incorporado à Estratégia de Segurança Nacional divulgada no fim de 2024. Essa diretriz reforça a ideia de supremacia dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, o controle de áreas estratégicas e o uso da presença militar como instrumento para garantir acesso geopolítico na região.
Entre as propostas centrais da resolução estão o fim de sanções econômicas unilaterais — incluindo o embargo a Cuba —, a recuperação do papel do Congresso na formulação da política externa, a abertura de arquivos oficiais relacionados a golpes de Estado apoiados por Washington e a construção conjunta de uma ampla reforma da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Embora o texto tenha futuro incerto em uma Câmara dominada por uma maioria republicana apertada, os autores defendem que a iniciativa é fundamental diante do atual cenário de tensão com países latino-americanos. Para os parlamentares envolvidos, desafios como migração, tráfico de drogas e mudanças climáticas exigem cooperação multilateral e não estratégias baseadas em coerção ou força militar.
A proposta também dialoga com debates anteriores sobre o tema. Em 2013, durante o governo Barack Obama, o então secretário de Estado John Kerry declarou o encerramento da era da Doutrina Monroe. Já em 2019, o então conselheiro de Segurança Nacional John Bolton afirmou publicamente que a doutrina seguia em pleno vigor.
O movimento recente encontra respaldo em críticas feitas por lideranças progressistas, como o senador Bernie Sanders, que tem apontado o histórico de intervenções norte-americanas na América Latina como incompatível com os valores democráticos defendidos internamente nos Estados Unidos.
✓ As informações desta reportagem têm como base texto assinado pelo jornalista Iker Seisdedos e publicado originalmente pelo jornal espanhol El País.
